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(Foto: Reprodução/X/@DiamondFilmsBR)

Existe uma categoria muito específica de filme de terror que eu adoro: aquele que olha para uma ideia completamente absurda e pensa “sim, vamos fazer isso”. Um bom filme trash não precisa ser sofisticado ou candidato a nenhuma lista de melhores do ano. Basta entender que a graça está justamente em abraçar o absurdo.

“O Sorveteiro” tinha tudo para entrar nessa categoria. Uma história com crianças assassinas, um vendedor de sorvetes misterioso e humor macabro. É praticamente uma receita pronta para um daqueles filmes que você termina pensando o quanto idiota isso foi, mas que ainda sim foi divertido… só que não é caso aqui.

A história acompanha Jared, um garoto que vive em uma cidade com aquela aparência de subúrbio americano tão organizada que parece ter sido criada por alguém que nunca precisou pagar aluguel. O lugar é colorido, tranquilo e cheio daquela atmosfera de infância idealizada. Até aparecer o sorveteiro e as crianças começarem a atacar os próprios pais.

Crianças assassinas e um sorveteiro que não assusta

Existe algo naturalmente perturbador em imaginar crianças, figuras normalmente associadas à inocência, transformadas em pequenas máquinas de matar. O filme tenta brincar com a situação, o que em alguns momentos funciona.

As crianças tratam situações violentíssimas quase como brincadeiras. Corpos e restos de vítimas acabam incorporados à estética infantil, criando cenas grotescas que poderiam facilmente funcionar em um terror trash mais inspirado.

Foto: Reprodução/X/@DiamondFilmsBR

O problema é que temos várias cenas absurdas, mostra sangue, passa para outra cena com ainda mais sangue e segue em frente. Não tem medo, antecipação, atmosfera, nada que segure. É o choque pelo choque. Depois de um tempo, você começa a perceber que o verdadeiro vilão talvez seja a repetição.

O gore parece ter sido criado para impressionar, mas muitas vezes funciona apenas como decoração. É quase como se alguém tivesse recebido a missão de encher um buffet de sangue e decidido que quantidade resolveria tudo. O terror trash pode, e deve, ser exagerado. O problema é que não existe tensão suficiente antes do exagero. Você nem sequer consegue se importar com um dos personagens.

Os adultos são especialmente prejudicados. O filme poderia construir relações familiares capazes de tornar a transformação das crianças emocionalmente devastadora. Em vez disso, muitos personagens parecem ter sido apresentados já com uma placa invisível escrito “futuro cadáver”.

Ari Millen também recebe um personagem que deveria ser muito mais interessante, justamente por viver o vilão título. O sorveteiro tem um sorriso permanente e uma postura teatral. O problema é que a performance parece mais uma coleção de maneirismos do que a construção de um vilão memorável.

É impossível não lembrar de Art, de “Terrifier” – na verdade, difícil é não associar todo esse filme a franquia, pois ele parece querer ser igual. Só que o palhaço conseguiu transformar seus gestos em personalidade, enquanto aqui, estamos vendo alguém fazendo cosplay de uma ideia que já funcionou melhor em outro lugar.

Tem massacre, mas falta sabor

Foto: Reprodução/X/@DiamondFilmsBR

Existe ainda uma polêmica envolvendo o uso de inteligência artificial em sequências animadas. O diretor Eli Roth confirmou a utilização da ferramenta em parte da produção, e olha que nem precisava, pois a cenas gritam IA. Aliás, a impressão que fica é que utilizaram inteligência artificial até mesmo no roteiro, de tão fraco e raso que ele é.

A única obrigação que um longa como uma premissa dessas é se divertir com ela. Há uma preocupação visual com as mortes, mas falta personalidade suficiente para que tudo isso deixe uma impressão duradoura.

Não é ruim de uma maneira tão espetacular que se torne divertido. Também não é bom o suficiente para funcionar como um terror convencional. É simplesmente… meio sem graça.

Eu aceitaria um roteiro completamente sem noção, efeitos exagerados, um vilão fazendo dancinha enquanto assassina alguém com uma colher gigante, mas me dê alguma personalidade.

O filme tem um conceito que poderia render uma mistura deliciosa de humor, horror e crítica à falsa sensação de segurança dos subúrbios. A mensagem sobre não confiar em estranhos é bastante óbvia, mas poderia servir como ponto de partida para alguma coisa mais interessante.

A curta duração é uma das poucas coisas que jogam a favor da produção. Pelo menos ela sabe que não existe motivo para ficar duas horas insistindo na mesma piada. O final também consegue recuperar parte do interesse, mas que aparece tarde demais.

No fim, “O Sorveteiro” é um daqueles filmes que você termina imaginando o que poderia ter sido, mas nada compensa graças a falta de tensão e de uma identidade própria. O longa deve funcionar apenas com o público que aprecia cenas de violências, mas sem muito contexto, assim como outros filmes do diretor.

Queríamos um filme divertido sobre um sorveteiro assassino, mas que, infelizmente, mal presença tem e até o sorvete fica sem gosto. No lugar de uma nova maluquice cult, sobra uma produção que termina e faz você pensar que poderia ter pedido outro sabor.



FONTE: Folha Vitória