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As perdas do BRB com a compra de ativos o Master poderia ultrapassar R$ 5 bi. Foto: Reprodução/Estadão

Está difícil, muito difícil viver no tempo atual. Pelo menos para aqueles que ainda acreditam em regras e na ideia de que a vida em sociedade depende de algum grau de confiança.
Diz o psicanalista Jorge Forbes que estamos “desbussolados”, sem norte, vivendo em um estado de confusão existencial nesse mundo contemporâneo.

A ética verticalizada, que sustenta um conjunto de valores e sentidos comuns, vai se esgarçando. Cada qual lança mão de uma ética particular para decidir entre ações corretas e incorretas.

No bojo dessa mudança estrutural, a cada novo escândalo fica mais evidente que o mundo parece ter sido capturado por uma lógica simples, que orienta a vida pública e privada: ganhar sempre, a qualquer preço.

O caso do Banco Master é um exemplo claro do rompimento de uma ética comum. O interesse particular se impõe sobre a noção de bem coletivo, e o lucro imediato se torna mais importante do que a responsabilidade.

Quem tenta agir com um mínimo de consciência passa a ter a sensação desconfortável de estar jogando um jogo em que as regras já foram abandonadas. Pior que isso: ganha a pecha de ingênuo. Se todo mundo age dessa maneira, por que resistir?

Nesse ponto, normalizamos o que errado está, e nesse processo perdemos a capacidade de nos indignar. Parece que estamos todos cansados, quase anestesiados diante de histórias semelhantes que se acumulam na política, nos negócios e até nas relações mais comuns do dia a dia. Assim, vamos desistindo de brigar pelo que é correto.

O pano de fundo, o paradoxo, é que essa gente criminosa conta justamente com isso. Pois veja, a indignação é um sentimento tão intenso de revolta diante de situações consideradas inaceitáveis que poderia servir como motor de mudanças, de ações práticas contra desmandos.

Não precisamos nos aprofundar em argumentos para perceber que o caso Master tem todos os elementos para gerar revolta, raiva e repulsa, ou seja, um profundo sentimento de indignação.

Ingênua é a sociedade que acredita que vai longe quando cada um decide cuidar apenas de si mesmo. Quem precisa se sentir desconfortável com o mundo são aqueles que fazem da
ética apenas um detalhe — algo que só vale quando não atrapalha os próprios interesses.



FONTE: Folha Vitória