No Brasil, 14,4 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência — 7,3% da população com dois anos ou mais, segundo o Censo 2022 do IBGE. Atrás de boa parte desses números existe uma segunda estatística, menos visível, mas igualmente reveladora: a de quem fica para cuidar. Na esmagadora maioria dos casos, essa pessoa é a mãe.
Abandono paterno e a sobrecarga materna
Não existe, ainda, um levantamento nacional que meça diretamente quantos pais abandonam filhos com deficiência no Brasil. Mas os indícios disponíveis apontam na mesma direção.
Um estudo conduzido em 2019 na Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (PE), por Diego Gomes da Silva Melo e Mikaelly Cavalcanti Borges, identificou aumento nos casos de negligência paterna após o surto de zika vírus, quando cresceu o número de bebês nascidos com microcefalia.
A pesquisa foi citada em reportagem do site Catarinas sobre mães solo de crianças com deficiência, na qual o próprio Diego Gomes relata a dificuldade que teve para encontrar dados e famílias dispostas a falar sobre o tema — sinal de como o assunto segue pouco investigado no país.
Na mesma reportagem, a psicóloga e pesquisadora Alana Lazaretti afirma ouvir com frequência relatos de pais que abandonaram os filhos por não se julgarem preparados para cuidar de alguém com deficiência. Entre as causas do abandono, segundo o levantamento, estão o preconceito, o medo do julgamento social e a frustração diante da quebra de expectativa em relação ao “filho idealizado”.
Psicólogas ouvidas em reportagens sobre o tema relatam escutar, com frequência, pais que dizem não se sentir “preparados” ou “aptos” para cuidar de um filho com deficiência — uma justificativa que raramente é usada, na mesma proporção, pelas mães.
O recorte de doenças raras é ainda mais duro: segundo o Instituto Vidas Raras, quase 80% das crianças com algum tipo de doença rara no Brasil sofrem algum tipo de abandono paterno. O fenômeno não é exclusivo das famílias com filhos com deficiência — mas costuma se agravar nesse contexto.
Segundo o IBGE, o Brasil tem cerca de 11,6 milhões de famílias formadas por mães solo, e outros levantamentos apontam que mais de 5 milhões de brasileiros não têm o nome do pai na certidão de nascimento. Só em 2021, 167.285 crianças foram registradas sem pai no país, segundo a Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC).
Raízes culturais e impacto da presença paterna
Para a psicóloga Belinda Mandelbaum, professora de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do Laboratório de Estudos da Família (LEFAM), em entrevista à reportagem “O abandono afetivo paterno além das estatísticas” — publicada pelo projeto Fala! Universidades e também pelo Instituto de Psicologia da USP —, a assimetria tem raízes culturais.
Ela explica que valores patriarcais associam o homem ao papel de provedor e autoridade, o que paradoxalmente facilita sua saída quando a rotina de cuidado se torna mais exigente — enquanto da mulher a sociedade segue cobrando a permanência, quase como uma obrigação natural.
Não à toa, o IBGE mantém a categoria “mulher sem cônjuge e com filhos” em suas séries históricas, mas não tem equivalente para os homens na mesma situação.
Reportagens sobre famílias de crianças com deficiência descrevem uma rotina recorrente: mães que assumem sozinhas terapias, consultas, cuidados diários e o sustento financeiro da casa, muitas vezes sem receber pensão alimentícia e dependendo de benefícios assistenciais ou de trabalho informal.
É o caso de Vera Farias, mãe entrevistada pelo site Catarinas em reportagem sobre mães solo de crianças com deficiência, que relata que o ex-marido usava a falta de coordenação motora da filha como justificativa para se afastar do papel de pai.
Situação semelhante é descrita por Patrícia, mãe de William, em depoimento à reportagem do site Lunetas sobre abandono afetivo paterno: segundo ela, o pai visitou o filho até os seis anos e depois o abandonou, alegando não querer vê-lo “assim”. Esse padrão de sobrecarga aparece também na pesquisa acadêmica.
A revisão integrativa “Estresse Parental e Relacionamento Conjugal em Pais de Crianças com Transtorno do Espectro Autista”, publicada na revista científica Contextos Clínicos (2022), com base em 39 artigos das bases BVS, CAPES, PePSIC, PubMed e SciELO, aponta entre os principais estressores a culpabilização do casal após o diagnóstico, a percepção da deficiência como um “fardo” e a sobrecarga concentrada em um dos cônjuges — historicamente a mãe.
Como fatores de proteção, o mesmo estudo cita o diálogo entre o casal, a divisão real de tarefas e o apoio familiar e social.Vale registrar um contraponto importante: a ideia de que a chegada de um filho com deficiência necessariamente aumenta o risco de separação do casal não é unânime na literatura internacional.
Um estudo do Kennedy Krieger Institute (Baltimore, EUA), conduzido pelo pesquisador Brian Freedman, diretor do Center for Autism and Related Disorders da instituição, e apresentado em maio de 2010, comparou quase 78 mil famílias com base na Pesquisa Nacional de Saúde Infantil dos Estados Unidos de 2007.
O levantamento encontrou uma diferença mínima nas taxas de convivência com ambos os pais entre lares com e sem crianças autistas — 64% contra 65%, segundo reportagem do site Autismo Diario, que noticiou os resultados da pesquisa.
O resultado sugere que separação não é destino automático, ainda que o estresse e a sobrecarga sejam, de fato, mais altos nessas famílias. A literatura sobre desenvolvimento infantil é consistente ao apontar os efeitos da presença paterna ativa — e mais ainda quando a criança tem alguma condição que exige suporte redobrado.
Pesquisas citadas em revisões sobre o tema associam a ausência do pai biológico a maior chance de repetência escolar e a índices mais altos de comportamento violento na escola. Estudos também relacionam a presença paterna consistente a níveis mais altos de autoestima e a menor incidência de obesidade infantil, ligada à negligência de cuidados.
No campo da neurodivergência especificamente, especialistas descrevem o suporte paterno como fator de proteção emocional: ele ajuda a construir segurança, autoestima e repertório para lidar com desafios diários, e favorece a criança quando o pai se envolve de fato — aprendendo sobre a condição do filho, acompanhando terapias e dividindo decisões, não apenas provendo financeiramente.
A psicóloga Camila Turati Pessoa, professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em entrevista à CNN Brasil sobre a importância da presença paterna no desenvolvimento infantil, reforça que a primeira infância é uma janela decisiva de desenvolvimento cerebral, e que a presença física e afetiva do pai nesse período amplia a rede de apoio necessária para a saúde física, psíquica e social da criança — impacto que se estende muito além dos primeiros anos.
Invisibilidade e caminhos para a coparentalidade
Um dos obstáculos para dimensionar essa realidade no Brasil é justamente a ausência de dados oficiais específicos.
Como aponta reportagem do site Catarinas, ainda não existe um censo que informe quantas pessoas com deficiência foram registradas sem o nome do pai, ou quantas sofreram algum tipo de abandono paterno — o que mantém o problema em grande parte invisibilizado nas políticas públicas.
Advogados que atuam na área de direito de família defendem maior responsabilização, incluindo a tramitação de projetos de lei que buscam criminalizar o abandono parental afetivo, hoje tratado majoritariamente pela via cível.
Enquanto isso, pesquisadores da área reforçam que promover a coparentalidade — a divisão real de decisões e cuidados entre pai e mãe — é uma das poucas variáveis que, segundo os estudos, efetivamente reduz a sobrecarga materna e melhora os indicadores de desenvolvimento da criança.


