O movimento Maio Amarelo tradicionalmente chama atenção para álcool, velocidade e uso do celular ao volante. No entanto, um fator silencioso e frequentemente negligenciado vem despertando preocupação crescente entre especialistas em saúde e segurança viária: os distúrbios do sono.
Entre eles, a Apneia Obstrutiva do Sono tem sido considerada uma importante causa de sonolência excessiva, redução da atenção e aumento do risco de acidentes automobilísticos.
Roncar não é apenas um incômodo
Muitas pessoas acreditam que roncar é apenas um incômodo social ou uma característica sem importância clínica. Porém, o ronco intenso e frequente pode representar um dos principais sinais da Apneia Obstrutiva do Sono, doença caracterizada por repetidas interrupções da respiração durante o sono.
Essas pausas respiratórias reduzem a oxigenação do organismo e fragmentam o sono ao longo da noite, impedindo que o cérebro alcance um descanso verdadeiramente restaurador.
Como consequência, o indivíduo frequentemente acorda cansado, apresenta fadiga durante o dia, dificuldade de concentração, lapsos de memória, irritabilidade e episódios involuntários de sonolência.
Estudos científicos recentes demonstram que pessoas com apneia do sono possuem maior probabilidade de se envolver em acidentes de trânsito quando comparadas à população geral. Uma revisão publicada em 2026 na revista científica Sleep Medicine Reviews mostrou que a sonolência diurna excessiva está diretamente associada ao aumento de colisões automobilísticas, especialmente em trajetos longos e monótonos.
O impacto da privação de sono no cérebro
A privação de sono afeta o cérebro de maneira semelhante ao consumo de álcool. Pesquisas apontam que permanecer acordado por períodos prolongados reduz o tempo de reação, prejudica o julgamento e diminui a capacidade de tomada de decisão. Em situações de trânsito, alguns segundos de desatenção podem ser suficientes para provocar acidentes graves.
Motoristas profissionais constituem um dos grupos mais vulneráveis. Caminhoneiros, motoristas de ônibus, aplicativos e profissionais que percorrem longas distâncias frequentemente enfrentam jornadas exaustivas, horários irregulares e restrição crônica de sono.
Estudos internacionais mostram elevada prevalência de Apneia Obstrutiva do Sono entre motoristas profissionais, especialmente naqueles com obesidade, hipertensão arterial e circunferência cervical aumentada. Além disso, muitos convivem anos com sintomas sem diagnóstico adequado.
Um aspecto preocupante é que o cérebro nem sempre percebe a gravidade da privação de sono. Muitas pessoas acreditam estar “acostumadas” ao cansaço, quando na verdade já apresentam redução significativa do desempenho cognitivo. Episódios conhecidos como “microssonos” podem ocorrer durante a direção. Nesses momentos, o cérebro literalmente entra em breves períodos de sono de alguns segundos, mesmo com os olhos aparentemente abertos. Em alta velocidade, isso pode significar percorrer dezenas de metros sem qualquer percepção do ambiente.
A fadiga também interfere na capacidade emocional do motorista. Estudos recentes demonstram que a privação de sono aumenta impulsividade, irritabilidade e dificuldade de lidar com situações inesperadas. Isso contribui para decisões inadequadas, maio agressividade no trânsito e redução da percepção de risco.
A importância do diagnóstico
Embora o ronco seja frequentemente banalizado, ele pode representar um importante sinal de alerta, especialmente quando associado a pausas respiratórias observadas por familiares, engasgos noturnos, dor de cabeça ao acordar e sonolência durante o dia. Nem todo indivíduo que ronca possui apneia, mas o ronco habitual merece avaliação especializada, principalmente em pessoas que dirigem longas distâncias ou trabalham em atividades de risco.
O diagnóstico da Apneia Obstrutiva do Sono é realizado por meio de avaliação clínica e exames específicos do sono, como a polissonografia. O tratamento depende da gravidade e das características anatômicas de cada paciente. Entre as opções estão mudanças no estilo de vida, perda de peso, terapias respiratórias pelo CPAP, aparelhos intraorais confeccionados por cirurgiões-dentistas habilitados em odontologia do sono, e, em casos indicados, procedimentos cirúrgicos.
Outro ponto importante é compreender que dormir pouco também representa um fator de risco. A rotina moderna, marcada por excesso de trabalho, uso noturno de telas e redução das horas de sono, vem criando uma população cronicamente fatigada. A sonolência ao volante já é considerada um problema de saúde pública em diversos países.
Assim como campanhas educativas alertam sobre os perigos do álcool e do celular ao dirigir, torna-se cada vez mais necessário discutir a importância do sono na segurança no trânsito. Dormir bem não é apenas questão de disposição ou qualidade de vida. É também uma medida de proteção coletiva.
Diversos estudos mostram que pacientes tratados adequadamente apresentam melhora significativa da sonolência diurna e redução do risco de acidentes automobilísticos. Isso reforça que identificar e tratar distúrbios do sono não é apenas uma questão de qualidade de vida, mas também de saúde pública e segurança coletiva.
Em tempos em que o Maio Amarelo reforça a responsabilidade individual na preservação da vida, reconhecer os sinais do próprio corpo pode salvar não apenas o motorista, mas também todos ao seu redor. Ronco intenso, fadiga excessiva e sono não reparador não devem ser ignorados. Em muitos casos, o perigo começa antes mesmo de ligar o carro.


