A produção de tilápia no Espírito Santo chegou a 21 mil toneladas em 2025, crescimento de 2,94% em relação ao ano anterior, segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026 da PEIXEBR. O valor econômico da atividade mais que dobrou em quatro anos, de R$ 26,3 milhões em 2020 para R$ 68,4 milhões em 2024. A tilápia responde por 98% de toda a piscicultura capixaba e se tornou, silenciosamente, uma das cadeias que mais crescem no agronegócio do estado.
Linhares lidera a produção, seguida por Domingos Martins, Guarapari e Marechal Floriano. São municípios que não têm mar e que construíram uma cadeia de proteína animal em água doce, com tanques, tecnologia e manejo especializado, longe do litoral e perto dos mercados consumidores do Sudeste. A tilápia capixaba tem ciclo curto, boa aceitação no varejo e na indústria e produtores que nos últimos anos incorporaram rastreabilidade, boas práticas de manejo e certificações que abriram portas além do mercado local.
A tilápia se tornou estratégica para o desenvolvimento da aquicultura no Espírito Santo. O estado vive um ciclo de crescimento sustentado pelos investimentos em tecnologia, qualificação e organização produtiva. O avanço representa mais renda para famílias rurais, diversificação econômica e maior segurança alimentar, exatamente o perfil de cadeia que o ES precisa ampliar para reduzir a dependência do café.
Alguns movimentos recentes mostram que o setor começa a ganhar outra dimensão. Em abril de 2026, a Tess, empresa de contabilidade e gestão de Linhares com mais de 50 anos de mercado, concluiu a aquisição de 100% do capital da Ala Pescados, indústria de beneficiamento e distribuição de pescados para o atacado e o food service nos estados do Sudeste. O processo começou em agosto de 2025, quando a Tess adquiriu uma participação inicial de 25%. Em menos de um ano, a operação foi concluída com a compra total.
“O modelo de gestão, estratégia e governança que temos na Tess e ensinamos para nossos clientes é o mesmo que implementamos na Ala Pescados. Em pouco tempo foi possível perceber o quanto podemos crescer com solidez e governança, o que nos permitiu ampliar a fatia da empresa até a totalidade do capital”, afirma André Zanezi, Especialista em Gestão e Private Equity da Tess e Diretor Executivo da Ala Pescados.
A empresa processa 100 toneladas de peixe por mês, faturou R$ 15 milhões em 2025 e projeta R$ 18 milhões em 2026. Ao mesmo tempo, produtores capixabas vêm incorporando boas práticas de manejo, melhoria genética, alimentação balanceada e controle sanitário, modernização que eleva a qualidade do produto e abre portas para mercados mais exigentes.
Mas o setor ainda enfrenta desafios que limitam seu crescimento. O avanço tecnológico e os novos métodos de manejo, embora em curso, ainda são tímidos em escala, o que gera intercorrências ao longo do ano, ruptura na cadeia de fornecimento e dificuldades de abastecimento que impactam diretamente na margem do setor.
Outra fragilidade estrutural é a ausência de balizamento de preço da matéria-prima no mercado capixaba. Diferente de polos produtivos consolidados como Minas Gerais e Paraná, onde o Cepea acompanha e publica cotações de referência, o ES não tem esse instrumento, o que gera volatilidade elevada no preço da tilápia e dificulta a educação do mercado para uma precificação mais estável. À medida que o mercado capixaba cresce, essa lacuna se torna um gargalo que o setor precisa endereçar.
Além disso, 2025 trouxe uma turbulência que o setor ainda digere. As tarifas de 50% impostas pelo governo Trump sobre produtos brasileiros, incluindo a tilápia, suspenderam os embarques para os EUA e cortaram pela metade a competitividade do produto nacional no principal mercado externo.
Os EUA respondem por 70% do mercado externo brasileiro de pescado. Só de tilápia, o país absorve 90% das exportações brasileiras. Com o tarifaço, o Brasil exportou 15,1 mil toneladas de tilápia em 2025, queda de 8,5% em relação às 16,5 mil toneladas de 2024 e a receita também recuou.
O cenário começou a mudar em fevereiro de 2026, quando a Suprema Corte americana suspendeu as tarifas baseadas na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional. A taxação caiu para a faixa de 15%, e a Abipesca passou a projetar exportações brasileiras de pescados em torno de US$ 600 milhões em 2026, com recuperação estimada de mais de 5 mil postos de trabalho na cadeia. Com tarifas abaixo de 20%, o produto brasileiro volta a ganhar competitividade, principalmente no segmento de filé fresco.
Há ainda um desafio que vai além das tarifas. A abertura do mercado brasileiro para a tilápia importada do Vietnã aumentou a pressão competitiva sobre o produto nacional no mercado interno. Na gôndola do supermercado, o consumidor muitas vezes não distingue a tilápia capixaba da vietnamita e o preço mais baixo do produto importado distorce a percepção de valor.
“A importação deve ocorrer quando há falta de produto, o que não é o caso da tilápia. Isso aconteceu justamente no ano de maior safra e de menores preços ao produtor”, aponta Bernardo Medeiros, presidente da PEIXEBR. Para o produtor capixaba, a pressão vem dos dois lados: no externo, a disputa pela volta ao mercado americano; no interno, a concorrência com produto mais barato e sem rastreabilidade equivalente.
A aquisição da Ala Pescados pela Tess aponta exatamente nessa direção: gestão profissional, escala de beneficiamento e olho no mercado internacional. “O agronegócio capixaba em geral apresenta excelentes oportunidades de ganho de eficiência e crescimento quando falamos em gestão estratégica do negócio, análises bem estruturadas e governança corporativa. Implementando isso na Ala Pescados, estaremos prontos para aproveitar todas essas oportunidades de mercado e nos posicionarmos como protagonistas no setor”, afirma Zanezi.


