banner_cidade
previous arrow
next arrow


Dia Mundial dos Répteis. Veja alguns dos répteis do ES! Fotos: Thiago Silva-Soares, Leonardo Merçon, Laís Magesky, Gabriel Bonfá e Italo Augustinho

Quando se fala em répteis, é comum pensar primeiro em cobras. Mas a fauna capixaba mostra que esse grupo vai muito além das serpentes. O Espírito Santo abriga uma diversidade de répteis que inclui lagartos de diferentes tamanhos, tartarugas marinhas, cágados, animais subterrâneos conhecidos como cobras-de-duas-cabeças e até jacaré.

Neste 21 de outubro, Dia Mundial dos Répteis, a data chama atenção para um grupo de animais que ainda é cercado por medo, desconhecimento e muitos mitos.

Uma compilação do projeto Herpeto Capixaba registra 135 espécies de répteis no Espírito Santo, distribuídas em diferentes ambientes do estado. O levantamento reúne serpentes, lagartos, anfisbenas, quelônios e crocodilianos.

A maior parte das espécies é formada por serpentes, mas elas estão longe de representar toda a diversidade capixaba. O estado também possui dezenas de espécies de lagartos e representantes de grupos que muita gente sequer reconhece como répteis.

Muito além das cobras

Entre os animais menos conhecidos estão as anfisbenas, popularmente chamadas de cobras-de-duas-cabeças.

Boiacica (Amphisbaena alba). Foto de Italo Augustinho, do iNaturalist
Boiacica (Amphisbaena alba). Foto de Italo Augustinho, do iNaturalist

Apesar do nome, elas não são cobras e têm apenas uma cabeça. O corpo alongado e a cauda arredondada ajudam a explicar a origem do apelido.

Esses animais vivem principalmente debaixo da terra, onde escavam túneis e passam boa parte da vida longe dos olhos humanos. No Espírito Santo, há registro de várias espécies desse grupo.

Outro representante é o jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), único crocodiliano nativo registrado no estado. A espécie pode ser encontrada em ambientes associados à água e à vegetação, como rios, lagoas, manguezais, brejos e pântanos.

Filhote de jacaré-de-papo-amarelo no Parque Estadual de Itaúnas.
Momento único: um jovem jacaré-de-papo-amarelo observa serenamente seu entorno no Parque Estadual de Itaúnas (não é o mesmo indivíduo da foto do ovo). | Foto: Leonardo Merçon

No Espírito Santo, a espécie é pesquisada e protegida pelo Programa Caiman – Jacarés da Mata Atlântica, iniciativa do Instituto Marcos Daniel. O projeto desenvolve estudos sobre a saúde e a ecologia das populações de jacaré-de-papo-amarelo e também promove atividades de educação ambiental. A iniciativa se tornou referência em pesquisa e conservação da espécie no país.

Lagartos de todos os tipos

Os lagartos também formam um grupo bastante diverso no Espírito Santo.

Entre eles está o teiú, um dos maiores lagartos do Brasil, facilmente reconhecido pelo porte robusto e pela língua bifurcada. A espécie pode ser encontrada tanto em áreas naturais quanto em locais alterados pela presença humana.

Close de um lagarto teiú na Praia de Camburi, em Vitória-ES
Um lagarto teiú em destaque na Praia de Camburi, símbolo da biodiversidade capixaba. | Foto: Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios

Em contraste com o tamanho do teiú, há lagartos pequenos e discretos, alguns fortemente associados à Mata Atlântica e às restingas.

Um exemplo é o lagartinho-de-Linhares, espécie encontrada em ambientes de restinga e que chama atenção por sua relação com ecossistemas costeiros.

Lagartinho-de-Linhares. Foto de Gabriel Bonfá, publicada no iNaturalist. Uso autorizado.
Lagartinho-de-Linhares. Foto de Gabriel Bonfá, publicada no iNaturalist. Uso autorizado.

A existência desses animais mostra como a diversidade de répteis está diretamente ligada à variedade de ambientes encontrados no território capixaba.

Da Mata Atlântica ao Litoral

A geografia do Espírito Santo ajuda a explicar a riqueza de espécies.

O estado reúne áreas de Mata Atlântica, restingas, ambientes montanhosos, rios, lagoas, manguezais e uma extensa faixa costeira. Cada um desses ecossistemas oferece condições diferentes para a sobrevivência dos répteis.

No Parque Estadual Paulo César Vinha, em Guarapari, por exemplo, levantamentos já registraram dezenas de espécies de répteis, incluindo serpentes, lagartos, anfisbenas, cágados e jacarés.

Já no litoral, as protagonistas são as tartarugas marinhas.

Cinco espécies de tartarugas marinhas

As cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil também são registradas no Espírito Santo: tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), tartaruga-verde (Chelonia mydas), tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) e tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea).

A presença desses animais também é acompanhada por iniciativas científicas desenvolvidas no estado. Uma delas é o Projeto Chelonia mydas, do Instituto Marcos Daniel, que estuda os impactos de poluentes sobre as tartarugas marinhas brasileiras.

Instituto Marcos Daniel

O projeto realiza pesquisas nas áreas de ecologia, ecotoxicologia, epidemiologia, patologia e saúde das tartarugas, buscando compreender como ambientes modificados pela ação humana afetam esses animais. Entre suas áreas de atuação estão Vitória, Regência e Povoação, em Linhares, e Aracruz.

Apesar de levar no nome científico a tartaruga-verde, o Projeto Chelonia mydas desenvolve estudos voltados às populações de tartarugas marinhas e ao impacto de contaminantes sobre esses animais.

O litoral capixaba também tem importância especial para a reprodução de algumas espécies. O Espírito Santo é o único estado brasileiro onde a tartaruga-de-couro apresenta desovas regulares, enquanto a região da foz do Rio Doce está entre as áreas de destaque para a reprodução da tartaruga-cabeçuda.

Além disso, a Ilha da Trindade, território pertencente ao Espírito Santo e localizada a mais de mil quilômetros da costa, é uma das principais áreas de reprodução da tartaruga-verde (Chelonia mydas) no Atlântico Sul.

Nem todo réptil é “perigoso”

Apesar da grande diversidade, boa parte dos répteis ainda é vista como ameaça.

No caso das serpentes, por exemplo, apenas uma parcela das espécies representa risco significativo para seres humanos. Muitas não possuem peçonha de importância médica e exercem funções importantes no ambiente, como o controle de roedores, anfíbios e outros pequenos animais.

Lagartos também ajudam no controle de insetos e outros invertebrados. Já tartarugas, jacarés e demais répteis participam de diferentes relações ecológicas e cadeias alimentares.

Por isso, especialistas alertam que matar esses animais indiscriminadamente pode prejudicar o equilíbrio ambiental.

Diversidade ainda pode crescer

O número de espécies conhecidas também não deve ser visto como definitivo.

Novos registros, revisões científicas e mudanças na classificação das espécies podem alterar a lista de répteis conhecidos no Espírito Santo ao longo dos anos.

Isso significa que a biodiversidade capixaba ainda guarda informações a serem descobertas.

No Dia Mundial dos Répteis, a diversidade encontrada no estado ajuda a mostrar que esses animais vão muito além das cobras que costumam dominar o imaginário popular.

Dos pequenos lagartos escondidos na vegetação às tartarugas que chegam ao litoral, dos animais que vivem debaixo da terra ao jacaré-de-papo-amarelo, os répteis ocupam praticamente todos os tipos de ambientes capixabas — muitas vezes sem que a população perceba que eles estão ali.



FONTE: Folha Vitória