A 10 dias das eleições gerais, o PT capixaba enfrenta uma crise interna que já deixou os bastidores e ganha cada vez mais volume. O motivo é a distribuição dos recursos do Fundo Eleitoral entre os candidatos do partido às eleições proporcionais.
Candidatos das chapas federal e estadual reclamam de falta de equilíbrio e transparência na divisão da verba e questionam os critérios adotados pela direção partidária para definir quanto cada candidatura receberá.
Segundo relatos feitos por candidatos à coluna De Olho no Poder e dados disponíveis no DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há diferenças expressivas nos valores destinados às campanhas. Em alguns casos, a quantia recebida por um candidato chega a ser até 10 vezes maior do que a repassada a outro.
É o caso do vereador de Vila Velha Rafael Primo, que é candidato a deputado federal pelo PT. Segundo dados do TSE, ele recebeu da direção nacional do partido o valor de R$ 201,5 mil para tocar a campanha – sendo que, desse montante, R$ 15.635 são de recursos estimáveis, ou seja, corresponde a bens e serviços e não passam pelas mãos do candidato.
Disputando na mesma chapa, a deputada federal Jack Rocha, que é candidata à reeleição, recebeu R$ 2,94 milhões e a deputada estadual Iriny Lopes, que também tenta uma vaga de federal, recebeu R$ 2,83 milhões.

Indignado, Primo gravou um vídeo e postou em seu perfil do Instagram, afirmando que sua campanha não vai receber nem 6% do valor máximo para o gasto com campanha de deputado federal – o limite legal de gastos na disputa federal é de R$ 3.176.572,53.
“Tem candidato que vai disputar essa campanha com milhões de reais, com dinheiro pra colocar estrutura em tudo quanto é lugar (…) Mas a minha campanha acaba de descobrir que eu vou receber 5,85% do teto de gastos para deputados federais. Menos de 6%. Eu poderia ficar quieto, mas eu venho aqui falar para vocês que essa disputa não é justa porque na política dinheiro compra visibilidade. É difícil competir assim”, disse o vereador no vídeo. E continuou:
“Em época de eleição, as coisas ficam muito caras. Eu não terei comitê, eu não terei lançamento de campanha, eu não terei gente contratada balançando bandeira nas esquinas”. O candidato chegou a ameaçar retirar a candidatura, mas recuou.
“Terceira vez que faço campanha sem recurso”
A insatisfação também bate ponto na chapa estadual, com muitos candidatos insatisfeitos com a distribuição das verbas. O vereador de Vitória Professor Jocelino, que disputa vaga de deputado estadual, é um deles.
O parlamentar recebeu de recurso livre R$ 98.200 e mais R$ 31.114 de recursos estimáveis, segundo dados do TSE. Jocelino afirmou que a forma de distribuição dos recursos não foi dialogada internamente.

“Estou extremamente insatisfeito. Essa distribuição de recursos precisa ter um debate mais amplo. Não pode uns ter muito e outros não ter nada. É uma distribuição que não foi dialogada entre as forças”, afirmou o vereador.
Jocelino contestou o fato de ter recebido menos que as correligionárias e vereadoras Karla Coser (Vitória) e Açucena (Cariacica), que também disputam a Assembleia.
Segundo dados do TSE, Karla recebeu até agora R$ 334.128,57 da direção nacional do PT; R$ 47.470 da campanha do pai e presidente do PT capixaba, João Coser – que é candidato a deputado federal – e mais R$ 12.090 da campanha de Iriny Lopes a federal. Desse montante, R$ 76.413 são em recursos estimáveis.
Já Açucena recebeu R$ 424.128,57 da direção nacional do PT; R$ 13.066 da campanha de Iriny; R$ 3.500 da campanha de Coser e R$ 1.617,50 da campanha de Jack Rocha. Desses valores, R$ 33.683,50 são em recursos estimáveis.
“A diferença entre o que eu recebi e o que a Karla e a Açucena receberam é muito grande. Teve candidato branco, sem mandato, que recebeu a mesma coisa que eu”, disse Jocelino, fazendo referência à resolução 23.607/2019 do TSE que estabelece, entre outras coisas, que candidaturas de pessoas negras devem receber valores proporcionais de, no mínimo, 30% do recurso destinado ao financiamento das campanhas.
Segundo ele, a cúpula estadual do partido dividiu as candidaturas em três grupos – G1, G2 e G3, sendo G1 o grupo das candidaturas prioritárias. “Eu estou no G1, no grupo das candidaturas prioritárias, mas não recebi nada a mais. Reclamei, mas me disseram que não teriam como fazer nada. Já é a terceira vez que faço campanha sem recurso”.
Vereador relata preconceito por ser “mais conservador”

A situação do vereador Pacheco, de Viana, é ainda mais delicada. Até agora, segundo o parlamentar e de acordo com dados públicos do TSE, ele recebeu apenas R$ 15.500 em recursos estimáveis.
“Esse valor da doação estimável nem passa por mim. Não recebi nada, nem um real, e não há perspectiva de receber nada. Muita desigualdade, a decepção é muito grande”, disse o parlamentar.
Ele acredita não ter recebido recursos por ser de uma ala mais “conservadora” do partido – a corrente Construindo um Novo Brasil (CNB): “Eu acho que não recebi por ser mais conservador, católico, da corrente CNB, que é ligada ao sindicalismo e a movimentos sociais. Essa corrente não é tão valorizada no partido quanto outras que defendem pautas identitárias e de minorias, que são mais fortes”, afirmou.
Porém, representantes das minorias também reclamam da situação de penúria durante a campanha.
“Decisão do presidente Coser”

O estudante Ramon Matheus, de 28 anos, jovem, negro e gay também reclama do pouco dinheiro e da falta de diálogo para a definição dos critérios para os recursos. Até o momento ele recebeu R$ 24.550 da direção nacional do PT.
“Sabíamos que a prioridade era para candidatos ao Senado e à Câmara Federal e de que não receberíamos muita coisa, mas não imaginei que não receberíamos quase nada”, disse Ramon, que disputa a eleição pela primeira vez.
Ele disse ter sido colocado no grupo G2 de candidaturas e que a decisão sobre os candidatos prioritários foi exclusiva da presidência estadual. “Foi uma decisão do presidente Coser, que fez uma lista e enviou para a nacional. Hoje, há um debate sobre renovação, Lula pediu para oxigenar as candidaturas, ter candidatos jovens, mas não recebi quase nada de recurso”.
O que diz o PT
A coluna procurou o presidente estadual da legenda, deputado João Coser, por meio de sua assessoria para tratar sobre a divisão de recursos e sobre os casos mencionados.
O partido, porém, respondeu com uma nota curta, sem entrar em detalhes: “Segundo o presidente do PT-ES, João Coser, os critérios para distribuição dos recursos do Fundo Partidário são decididos pela Executiva Nacional do partido, não havendo participação do diretório estadual nesta definição”.
Sobre a suposta definição de candidaturas prioritárias, os critérios usados para a distribuição dos recursos e sobre a possibilidade dos candidatos receberem mais verba para a campanha, o partido não respondeu.
A coluna não conseguiu contato com a Executiva Nacional do PT.
Em tempo: Para a eleição deste ano, o PT terá direito a R$ 615,4 milhões do Fundo Eleitoral. É a segunda maior fatia dos R$ 4,9 bilhões destinados para o financiamento de campanhas entre 30 legendas. O PT só fica atrás do PL que vai receber R$ 881,7 milhões.
O critério para a definição dos valores é o tamanho da bancada federal eleita pelo partido na última eleição (2022).


