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A vida nem sempre segue o roteiro que a gente imagina. Às vezes, ela surpreende, e, em alguns casos, emociona. A história de Gilson Rodrigues Vieira, conhecido nas redes como Poeta Capixaba 63, é exatamente assim: simples, improvável e profundamente inspiradora.

Aos 63 anos, quando muitos acreditam que já viveram suas grandes mudanças, ele decidiu começar algo completamente novo há cerca de dez meses atrás. Foi no volante trabalhando como motorista de aplicativo, cruzando as ruas da Grande Vitória que nasceu um poeta.

Tendo estudado apenas até o quarto ano do ensino primário, Gilson carrega consigo uma história de luta, trabalho e superação. Filho de pais sem escolaridade, criado em uma família grande com 12 irmãos, ele cresceu longe de qualquer incentivo formal à leitura ou à escrita. Ainda assim, a poesia sempre esteve ali, guardada em silêncio.

Infância simples e o primeiro contato com a poesia

(Fotos: Acervo Pessoal)

Foi ainda criança, em Ibatiba, no Caparaó do Estado, que ele teve seu primeiro encontro com os versos. A mãe, mesmo sem estudo, recitava poesias para os doze filhos, uma cena simples, mas bonita e que marcou para sempre a memória de Gilson. Durante toda a vida, ele gostou de ouvir e apreciar poemas, mas nunca havia escrito uma linha sequer. Até que algo mudou.

O início da escrita veio de forma inesperada e carregada de emoção. Ao ver um sabiá ferido preso em uma gaiola, Gilson sentiu algo diferente. Foi ali, diante daquela cena, que decidiu escrever seu primeiro poema. “Foi como uma virada de chave onde eu tomei o gosto pela poesia”, conta.

O texto ganhou o nome de “Um sabiá me falou”, e marcou o começo de uma nova fase. Desde então, ele passou a escrever todos os dias. Não houve planejamento, ou sequer curso, apenas muitos sentimentos envolvidos.

Gilson trilhou um caminho longo. Saiu da roça ainda jovem, era lá em que ele trabalhou na lavoura, se casou em Belo Horizonte, onde morou por 18 anos, e logo voltou para o Espírito Santo, vivendo em Vila Velha desde 2001. Construiu família, mantém um casamento duradouro, além de ter duas filhas e oito netos.

Ele já atuou no ramo de confecção e moda praia, mas foi apenas durante a pandemia que encontrou no transporte por aplicativo uma nova oportunidade de trabalho. E, anos depois, sem imaginar, também encontrou ali sua vocação artística.

Versos entre um sinal e outro

(Fotos: Acervo Pessoal)

Hoje, é dentro de seu carro que ele cria, sente e se reinventa. Entre uma corrida e outra, nos breves instantes em que o sinal fecha, o volante dá lugar ao caderno. Com a caneta sempre por perto e o olhar atento ao que acontece ao redor, as ideias começam a surgir, e muitas vezes, é no meio do trânsito que nascem seus poemas.

As inspirações vêm da vida como ela é, seja das conversas com passageiros, das lembranças guardadas ao longo dos anos, da observação dos animais, da natureza e dos pequenos detalhes que passam despercebidos pela maioria. Tudo pode virar verso. 

Sem computador e sem domínio das tecnologias, os poemas são escritos à mão, e quando consegue, ele imprime e os registra. Ao deixar seus poemas expostos dentro do veículo, Gilson transforma viagens comuns em experiências marcantes. As reações são das mais diversas: há quem sorria, quem se surpreenda… e há quem se emocione profundamente.

Segundo ele, uma professora não conseguiu conter as lágrimas ao ouvir um de seus poemas. Tocada pela sensibilidade das palavras, pediu para tirar uma foto com ele e disse que levaria aquela história para seus alunos, como forma de inspiração. Em outra viagem, uma passageira se emocionou com o poema do sabiá, algo que já se transformou em combustível para continuar escrevendo.

O sonho que começa a ganhar forma

A rotina de Gilson continua intensa, acorda às 4h30 da manhã, segue para a academia e, logo depois, encara uma longa jornada de cerca de 12 horas ao volante. Mas, em meio a essa rotina, algo mudou com um novo propósito em cada detalhe do seu dia.

Além de hobby, a poesia passou a ocupar um espaço essencial em sua vida. Mais do que escrever, Gilson encontrou nas palavras uma forma de se expressar,  de se conectar com o mundo ao seu redor. 

Mesmo se considerando “amador”, ele já carrega um sonho que cresce silenciosamente: o de lançar um livro. A insegurança por ter estudado pouco ainda aparece vez ou outra, mas vem sendo substituída por algo mais forte, a confiança, que nasce, principalmente, nas reações sinceras de quem escuta seus poemas e se reconhece neles.

Recentemente, Gilson deu mais um passo importante ao decidir voltar a estudar. Uma escolha que, por si só, já carrega um significado enorme, pois mostra que nunca é tarde para recomeçar, aprender e ir além do que se imaginava possível, seja você jovem ou mais velho.

“Você que tem tendência à escrita, comece já. Você que já tem uma certa idade, não se preocupe. E você, jovem, que tem essa veia artística, vá em frente. Faça como eu: simplesmente escreva. No início, me preocupei muito em me colocar como aquele que não sabia, mas fazia. Hoje, me posiciono de outra forma: faço porque gosto, porque outros gostam e porque me faz bem.”

Gilson Rodrigues Vieira, o Poeta Capixaba 63





FONTE: Folha Vitória