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Em menos de doze meses, as exportações de ovos capixabas passaram por quatro fases distintas: boom histórico, colapso tarifário, derrubada judicial e reabertura parcial. O resultado é um setor que construiu capacidade exportadora em tempo recorde, perdeu o mercado principal da noite para o dia e agora se vê diante de uma janela mais estreita, mas com mais destinos disponíveis do que antes.

A crise de gripe aviária (H5N1) nos Estados Unidos destruiu dezenas de milhões de aves poedeiras ao longo de 2024 e 2025, colapsando a oferta interna americana. O preço do ovo no varejo americano chegou a US$ 9,64 por dúzia em fevereiro de 2026, recorde histórico, e importadores americanos varreram o mercado global em busca de fornecedores. O Brasil estava disponível, e dentro do Brasil, o Espírito Santo estava particularmente bem posicionado.

Santa Maria de Jetibá, maior município produtor de ovos do Brasil, concentra 91,3% da produção capixaba. O estado produziu 5,26 bilhões de unidades em 2025, 3º maior produtor nacional, com estrutura logística e sanitária capaz de responder com velocidade. As exportações capixabas saltaram de US$ 608 mil em 2024 para US$ 8,4 milhões em 2025, crescimento de 1.275%. O produto chegou a 27 países, mas noventa e sete por cento do valor foi para os Estados Unidos.

Em agosto de 2025, o governo Trump impôs tarifa de 50% sobre ovos brasileiros. O efeito foi imediato: as compras americanas de ovos brasileiros caíram 99%. O produto que havia se tornado a principal novidade exportadora do agronegócio capixaba deixou de ser competitivo no mercado que concentrava quase toda a receita. A concentração em um único destino, que parecia vantagem no momento de alta demanda, transformou-se em vulnerabilidade total quando a política comercial mudou.

O paradoxo do período foi que, mesmo com o mercado americano fechado, as exportações totais de ovos do Brasil atingiram recordes em 2025. A gripe aviária havia criado demanda em múltiplos países simultaneamente, e exportadores brasileiros encontraram saídas em mercados que antes não acessavam. O ES, porém, com 97% do valor concentrado nos EUA, sentiu o impacto de forma desproporcional.

Com a derrubada da tarifa em 20 de fevereiro de 2026 pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos, no lugar das tarifas setoriais de até 50%, passou a vigorar uma tarifa universal de 15% aplicada a todos os países, não discriminatória, portanto sem vantagem específica para nenhum concorrente do Brasil.

Para os ovos capixabas, a mudança significa retorno parcial da competitividade no mercado americano. Com 15% de tarifa, o produto brasileiro volta a ter acesso, mas não ao mesmo patamar de antes do tarifaço. O preço do ovo americano, que chegou a US$ 9,64/dúzia no auge da escassez, já começa a ceder à medida que o plantel doméstico dos EUA se reconstrói. A janela permanece aberta, mas está mais estreita do que estava no primeiro semestre de 2025.

O novo tabuleiro: União Europeia abre, Brasil recupera status sanitário

Dois movimentos paralelos ampliam o horizonte exportador além dos EUA. Em novembro de 2025, a União Europeia anunciou a retomada do sistema de pré-listagem para estabelecimentos avícolas brasileiros de ovos e derivados, sinalização de confiança que abre o acesso ao bloco, historicamente um dos mercados mais exigentes e de maior valor agregado do mundo.

O Brasil enfrentou incidentes de influenza aviária em 2025 que afetaram temporariamente seu reconhecimento como zona livre da doença. O status foi recuperado, e a retomada da pré-listagem europeia é, em parte, o reconhecimento formal desse processo. Para o ES, que não registrou surtos em granjas comerciais durante o período, a abertura europeia representa uma oportunidade de acesso a um mercado que remunera qualidade e rastreabilidade de forma diferente dos EUA.

A questão para 2026 é se o setor vai consolidar essa diversificação ou retornar à dependência de um único mercado quando o acesso americano se normalizar.

Santa Maria de Jetibá é o maior produtor de ovos do Brasil. Tem a escala, a estrutura produtiva e após 2025, a experiência de exportar em volume. O que define se isso vira cadeia exportadora permanente ou ciclo de oportunidade é a decisão de investir em acesso a mercados e profissionalização antes que a próxima janela abra.



FONTE: Folha Vitória