Entre o azul do mar, o vento frio da manhã e o movimento de quem passa pela orla, Vitória ganhou de presente um novo colorido nesta terça-feira (8), quando celebra o aniversário de 475 anos. Na Praia de Camburi, telas em branco começaram, pouco a pouco, a se transformarem em paisagens, memórias e personagens.
Foi assim que a arte tomou conta da orla. Desde as primeiras horas da manhã, 60 artistas participam do Vale em Cores e transformam Camburi em uma grande galeria a céu aberto. Pincéis, tintas, sprays, lápis e tablets com referências dividiram espaço com o cenário natural da praia. Alguns artistas chegaram com imagens e pequenas pinturas para servir de inspiração; outros começaram diante do público, a partir dos primeiros traços.
Cada tela ganha uma história e um olhar diferente. A Pedra da Cebola, a Praia de Camburi, a fauna e a flora capixabas e outros elementos da identidade do Espírito Santo foram aparecendo nas obras. Técnicas e estilos variados se encontraram no mesmo espaço, em um corredor artístico onde não havia uma única maneira de pintar Vitória.



E a exposição também não ficou separada do público. Quem passava pela orla parava para observar, fazer perguntas e acompanhar de perto o nascimento das obras.
Famílias e crianças também entraram na brincadeira: os pequenos ganharam espaço para colorir e experimentar a própria arte, enquanto pipocas e picolés era distribuída para quem circulava pelo local.
Por ali, a arte também ganhou som. Durante o processo de criação, um jovem tocava violino, acrescentando música ao ambiente e mostrando, na prática, como diferentes manifestações artísticas podem ocupar o mesmo espaço.
A distância entre artista e espectador praticamente desapareceu, e teve obra em que o público também pôde colocar a mão e deixar sua própria marca. Mais do que observar uma pintura pronta, quem passou por Camburi teve a oportunidade de acompanhar o instante em que ela começava a existir.
Artistas de diferentes vertentes



Um dos participantes é o tatuador e artista Anderson Pança, que trabalha há 29 anos com tatuagem e há 23 com pintura. Para ele, estar ao lado de profissionais de diferentes vertentes é justamente uma das experiências mais interessantes proporcionadas pelo projeto.
Experiência nova. Nunca participei de algo parecido. O convite foi bem interessante e está sendo uma honra estar junto de vários outros artistas, de várias vertentes diferentes. Eu acho que o mais interessante desse projeto é isso: estar colocado em um corredor artístico, vários artistas com suas vertentes, seus estilos, sua maneira de pintar, cada um com sua peculiaridade para pintar.
Anderson Pança, artista e tatuador
Anderson avalia que essa convivência acaba sendo enriquecedora não apenas para os artistas, mas também para quem acompanha o trabalho e para a própria cultura capixaba. Na visão dele, a proposta tem potencial para ultrapassar os limites de Vitória, alcançar outros municípios e até mesmo outros estados.
A obra que ele produz também foi pensada para reunir referências ligadas às duas comemorações que motivaram o evento: os 475 anos de Vitória e os 60 anos da Unidade de Tubarão. Entre os elementos escolhidos está um tubarão, inserido dentro da linguagem artística do próprio Anderson, como símbolo do Porto, da indústria e da importância que ela teve para o desenvolvimento do Espírito Santo.
A composição também traz uma ponte, escolhida por representar mais do que um símbolo do Estado. Para o artista, ela fala principalmente sobre conexão: de pessoas, de histórias e da própria Vitória com outros municípios.
No centro da obra, aparece ainda a imagem de Iemanjá, representada em uma esfera. A escolha também dialoga com a diversidade religiosa e cultural, além de fazer referência a um importante ponto turístico e de encontro da cidade.
Anderson conta que já está acostumado a produzir diante de outras pessoas por causa da experiência em convenções de tatuagem.
Fauna e flora de Vitória em destaque



A artista Alex também buscou na própria natureza capixaba a inspiração para a obra. Antes de começar, pesquisou elementos da fauna e da flora de Vitória e levou essas referências para a tela. Durante o trabalho, a pintura já começava a ganhar forma, com a figura de uma mulher em azul ocupando destaque na composição.
Trazer a baleia-jubarte, a tartaruga-marinha também e alguns peixes para poder representar Vitória e, ao mesmo tempo, também dialogar com a poética do meu trabalho mesmo.
Alex, artista plástica
A proposta, segundo a artista, é reunir elementos da natureza local, ao mesmo tempo em que mantém características da linguagem e da poética do próprio trabalho.
A escolha do spray tem relação direta com a experiência de Alex em festivais de grafite. Acostumada a pintar em espaços públicos e cercada por pessoas, ela conta que a técnica permite mais agilidade para desenvolver e concluir a obra, além de produzir um efeito que considera especial.
E a presença do público, que parava para observar e perguntar sobre a pintura, também foi recebida com entusiasmo pela artista. Para Alex, essa troca faz parte da experiência de criar arte em um espaço aberto.
Mais do que simplesmente retratar paisagens ou animais, Alex quer que a obra desperte uma sensação em quem olhar para ela. A palavra escolhida pela artista para definir o que pretende transmitir é “calmaria”, uma atmosfera que, para ela, combina com a proposta do projeto.
Décadas de cores e memórias
Entre os artistas que ocupam a Praia de Camburi está Angela Gomes, que aos 73 anos, carrega anos de dedicação à pintura e uma relação construída ao longo do tempo com as paisagens e manifestações culturais do Espírito Santo.
Natural de Cachoeiro de Itapemirim, Angela encontrou na arte uma maneira de registrar aquilo que considera parte da identidade do Estado. Paisagens, referências históricas e religiosas e elementos do folclore aparecem em diferentes momentos de sua produção.
Mas, para ela, estar em Vitória neste aniversário de 475 anos tem um significado particular. A capital, segundo a artista, teve papel importante na sua trajetória e na construção de sua carreira.
Sou natural de Cachoeiro, eu trago a identidade capixaba através das paisagens, dos momentos históricos e religiosos, do folclore, sempre com muito carinho, porque eu sou muito grata a Vitória. É essa cidade que me elegeu como artista.
Angela Gomes, artista plástica



Para o Vale em Cores, a escolha dela foi por um cenário que faz parte da memória visual de quem vive ou visita a capital. Angela levou para a tela a Pedra da Cebola, um dos espaços mais conhecidos de Vitória. A paisagem, que reúne natureza e um dos cartões-postais da cidade, se transforma agora em uma homenagem feita em tinta e pincel.
A escolha também conversa com a preocupação da artista com a preservação dos espaços públicos e das paisagens que ajudam a contar a história da cidade.
O encontro entre gerações é justamente uma das imagens que o evento proporciona. De um lado, artistas com décadas de experiência; de outro, profissionais mais jovens, com novas técnicas, linguagens e maneiras de interpretar o mesmo território.
Para Angela, participar desse momento é também uma forma de continuar produzindo, compartilhando experiências, e a homenagem escolhida por ela resume essa relação de uma artista que dedicou boa parte da vida a registrar o Espírito Santo agora usa a própria arte para presentear Vitória.
Encontro da artes e música
A pintura ganhou ainda outro elemento no meio do processo de criação: a música. Enquanto os artistas trabalhavam nas telas, o som de um violino passou a fazer parte da paisagem de Camburi.
A apresentação foi feita por Arthur Magalhães, de 12 anos, integrante da orquestra e voluntário do Instituto Serenata de Favela, uma organização social sem fins lucrativos que utiliza a cultura para a transformação de centenas de crianças e jovens da periferia.
A participação dele nasceu de uma ideia para acompanhar uma das obras. O artista convidado Handerson Chic estava produzindo uma tela com a representação de uma violonista e a intenção inicial era levar uma menina para servir de referência. Como ela estava viajando, Arthur acabou assumindo o convite.
Luciene Pratti, do Instituto Serenata de Favela, conta que não pensou duas vezes quando soube da proposta. Arthur, segundo ela, também aceitou imediatamente o desafio de ir até a praia para participar do projeto.



Quando a gente quis trazer de presente para o Handerson Chic música para inspirá-lo ainda mais na obra dele, a gente entendia que era isso que causa isso, porque a arte está em todo lugar. Ela se completa.
Luciene Pratti, do Instituto Serenata de Favela
Aos 12 anos, Arthur levou para o evento não apenas a música, mas também a presença de uma nova geração dentro de um encontro que reuniu 60 artistas. A ideia era que o violino dialogasse com o processo de criação e ajudasse a construir a atmosfera da obra.
Para Luciene, essa combinação mostra justamente como diferentes manifestações culturais podem se encontrar e se completar. A música acompanha a pintura, a pintura inspira a música e, no meio disso, o público também passa a fazer parte da experiência.
A participação também representa, na visão dela, uma oportunidade de aproximar a população de artistas que normalmente são vistos em outros contextos. Em vez de uma obra pronta em uma galeria ou de uma apresentação em um palco, o público encontra o processo acontecendo diante dos olhos, de forma aberta e acessível.
Oportunizar à população, essa arte aberta, com essa qualidade, com esses profissionais, para todos os lugares dos territórios. Então, oportunizar condição para que todos vejam, em todos os lugares, que a arte é capaz de fazer.
Luciene Pratti, do Instituto Serenata de Favela
Um museu em plena orla
O Vale em Cores nasceu para celebrar os 475 anos de Vitória e os 60 anos da Unidade de Tubarão. A proposta reúne 60 artistas, em sua maioria capixabas, para transformar referências do território em obras produzidas diante do público.
Segundo Vanessa Tavares, gerente de Relações Institucionais da Vale no Espírito Santo, a ideia era justamente fazer com que as comemorações ganhassem uma tradução por meio da cultura, aproveitando a própria paisagem que serviu de inspiração para os artistas.



A gente uniu tudo isso para que nós tivéssemos a oportunidade de através da arte, da cultura, retratar por meio dessas obras e desses artistas o cenário em que tudo isso, que é uma inspiração natural, acontece.
Vanessa Tavares, gerente de Relações Institucionais da Vale
A movimentação na Praia de Camburi também foi resultado de uma divulgação iniciada antes do evento. A expectativa era despertar a curiosidade do público e fazer com que as pessoas chegassem ao local já interessadas em acompanhar a transformação das telas.
E, durante a manhã, moradores e visitantes foram se aproximando, observando os trabalhos, conversando com os artistas e acompanhando o surgimento das pinturas. Para Vanessa, o envolvimento do público mostrou que a proposta conseguiu criar essa conexão.
Mas as obras não terminam sua história quando deixarem a praia. As telas terão uma destinação social, ainda em definição, com a previsão de contemplar comunidades das áreas de atuação da Vale.
A iniciativa também busca mostrar que a cultura pode aproximar diferentes setores e abrir espaço para novas formas de ocupar a cidade com arte. Reunir profissionais com linguagens tão diferentes em um mesmo local é uma das principais forças do projeto.
O evento também serve para fortalecer realmente essa parceria e mostrar a possibilidade que têm os segmentos, principalmente o cultural, de apresentar projetos inovadores, projetos que façam sentido para a cidade, que façam sentido para as instituições.
Vanessa Tavares, gerente de Relações Institucionais da Vale
Ao longo da manhã, as telas que começaram brancas foram ganhando traços, cores e histórias. O lápis deu lugar ao pincel, o spray encontrou a tinta, a pintura encontrou a música e o público deixou de ser apenas espectador para também participar da criação.
Por algumas horas, a Praia de Camburi deixou de ser apenas o cenário onde tudo acontecia e passou a fazer parte da própria obra. O mar, a paisagem, a cidade e as pessoas que circulavam pela orla acabaram incorporados à experiência.
No fim, o que ficou foram 60 novas maneiras de enxergar Vitória, produzidas ao vivo, diante de quem passava. Um retrato coletivo de uma cidade que, por um dia, deixou de ser apenas paisagem para virar arte. diante de quem passa, com diferentes gerações e linguagens dividindo o mesmo espaço.




