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A China reteve cerca de 20 navios com soja brasileira entre o fim de fevereiro e início de março após o órgão sanitário e alfandegário chinês, GACC, intensificar inspeções por presença de sementes de ervas daninhas proibidas. A Cargill suspendeu embarques em 12 de março. O bloqueio atingiu entre 1,2 e 1,5 milhão de toneladas num momento de pico de escoamento da safra, derrubando 3,2% no contrato de soja na CBOT durante o impasse

 A autoridade chinesa havia alertado o Brasil ao fim de 2025 sobre excesso de sementes proibidas nos carregamentos e converteu uma tolerância informal em política de tolerância zero, exigência agronomicamente inviável para grãos produzidos em escala. Após negociação conduzida pelo Ministério da Agricultura, as cargas foram liberadas e a política de tolerância zero foi abandonada. O ministro Carlos Fávaro anunciou missão técnica a Pequim para fechar um protocolo bilateral.O problema central, porém, não foi resolvido: nenhum limite numérico foi acordado. Sem parâmetro técnico definido, o GACC mantém poder discricionário sobre cada carregamento, o que representa risco estrutural permanente para um fluxo de dezenas de navios semanais na temporada de safra.O mecanismo não é novo. Em 2020, a China suspendeu exportações dos quatro maiores frigoríficos australianos sob justificativa sanitária, em represália política ao pedido australiano de investigação sobre a origem da covid-19. O bloqueio durou dois anos e custou 30% das exportações de carne. A dependência brasileira é comparável: 80% da soja exportada vai para a China, que por sua vez importa 73,6% do grão brasileiro.Brasil e China retomaram negociações para um protocolo conjunto de certificação de soja e carne em agosto de 2025, mas ele ainda não estava concluído quando o GACC endureceu as inspeções. Países com protocolos detalhados, que estabelecem limites por amostra, metodologia de coleta e instâncias de recurso, não ficam reféns desse tipo de situação. O Brasil tem instrumentos negociadores concretos, como o programa Soja Plus (mais de 13 milhões de hectares certificados) e o Selo ABC+, que poderiam servir de base para um acordo bilateral.Com a safra recorde de 112 milhões de toneladas pressionando o escoamento em abril, as cotações internas devem permanecer deprimidas. Para o Espírito Santo, o impacto é indireto: o estado não produz soja em escala, mas a oscilação do grão influencia o câmbio agrícola nacional e os contratos de exportadores de conilon, mamão e pimenta-do-reino.



FONTE: Folha Vitória