A primeira temporada de The Handmaid's Tale, produzida pelo Hulu e estreada em 2017, adapta o romance homônimo da escritora canadense Margaret Atwood, publicado originalmente em 1985. Dirigida em sua maior parte por Reed Morano e protagonizada por Elisabeth Moss, o sucesso da temporada foi coroado com oito prêmios Emmy, entre eles o de Melhor Série Dramática. A obra retrata a República de Gilead, regime totalitário que substitui os Estados Unidos após um golpe de Estado, em meio a uma crise demográfica provocada pelo colapso da fertilidade humana.
A protagonista, June Osborne, é uma ex-editora de livros separada à força do marido Luke e da filha Hannah durante uma tentativa de fuga para o Canadá. Como uma das poucas mulheres ainda férteis em Gilead, June é capturada, renomeada “Offred” — literalmente, “de Fred”, em referência ao Comandante Fred Waterford, a quem pertence — e transformada em uma Aia, classe de mulheres submetidas a estupros ritualizados mensais com o objetivo de gerar filhos para os líderes do regime e suas esposas. Ao longo dos dez episódios, June navega entre obediência aparente e resistência silenciosa, ao lado de outras Aias como Ofglen, brutalmente punida por sua homossexualidade, e Janine, cuja sanidade se deteriora sob o peso da opressão.
O que torna a série particularmente perturbadora não é a violência explícita, ainda que ela esteja presente, mas a construção meticulosa de como Gilead se instaurou. Por meio de flashbacks distribuídos ao longo da temporada, pode ser observado que o regime não surgiu de uma invasão estrangeira nem de uma catástrofe natural, mas de uma sequência de pequenas concessões. Primeiro, um atentado terrorista eliminou o presidente e a maior parte do Congresso, abrindo espaço para um governo de exceção. Em seguida, as contas bancárias de mulheres foram congeladas em um único dia, sob o pretexto técnico de “transferência para os maridos”. Mulheres foram demitidas em massa. Livros foram queimados. Cada etapa, isoladamente, parecia justificável diante da crise. Quando June e suas colegas tentam reagir nas ruas, é tarde demais.
Essa progressão é talvez a contribuição mais valiosa da obra para quem se prepara para liderar em uma sociedade livre. Gilead não cai do céu — é construída, tijolo por tijolo, com a cumplicidade ativa de uns e o silêncio passivo de muitos. O Comandante Waterford, vivido por Joseph Fiennes, não é retratado como um monstro caricato: é um homem culto, articulado, que joga Scrabble com sua Aia e justifica intelectualmente o regime. Sua esposa, Serena Joy (Yvonne Strahovski), foi uma das ideólogas do movimento que culminou em Gilead — apenas para descobrir, depois da vitória, que mulheres como ela também perderiam o direito de ler, escrever e opinar. A obra mostra com precisão cirúrgica como aqueles que ajudam a destruir as instituições da liberdade raramente escapam ilesos das consequências.
Do ponto de vista da formação de lideranças comprometidas com os ideais de liberdade e Estado de Direito, O Conto da Aia funciona como um espelho às avessas dos cinco valores fundamentais que estruturam uma sociedade livre. Gilead é o oposto exato de cada um deles. A liberdade individual é abolida não apenas em sua dimensão política, mas em sua expressão mais íntima: mulheres não escolhem o que vestir, o que ler, com quem se relacionar, nem o que fazer com o próprio corpo. A economia de mercado é substituída por uma economia planificada em que produção e consumo obedecem a critérios morais arbitrários. O “estado de direito” dá lugar a tribunais sumários e enforcamentos públicos. A responsabilidade individual é dissolvida na função coletiva — cada mulher é reduzida a uma cor de uniforme: vermelho para as Aias, azul para as Esposas, verde para as Marthas. E a propriedade privada desaparece no episódio em que as contas bancárias femininas são confiscadas em um único decreto — cena que ecoa episódios reais da história do século XX.
Como a própria Margaret Atwood observou em diversas entrevistas, ela não incluiu no livro nada que não houvesse acontecido em algum regime totalitário real. A diversidade desses exemplos históricos — vindos de matrizes ideológicas opostas — sugere que o problema central não é a ideologia específica que impulsiona o regime, mas a destruição das instituições que protegem o indivíduo. Friedrich Hayek, em O Caminho da Servidão, advertiu já em 1944 que a centralização do poder econômico nas mãos do Estado é o primeiro passo, ainda que involuntário, para a destruição das liberdades civis. Quando o Estado controla o que se produz, controla o que se pode comer; quando controla o emprego, controla o que se pode dizer; quando controla a moeda, controla a própria possibilidade de discordar. Gilead é a ilustração ficcional dessa tese.
A primeira temporada termina com June grávida, sendo levada por homens armados em uma van — sem saber se ruma para a morte ou para a fuga. O recurso narrativo é deliberado: a luta pela liberdade, no mundo real, raramente termina em um único ato heroico. É construída cotidianamente, por gestos pequenos de resistência, pela manutenção da memória — June repete obsessivamente seu verdadeiro nome para não esquecê-lo — e pela coragem de dizer “não” antes que dizer “não” se torne impossível.
A lição que fica para quem se prepara para liderar é dupla. A primeira: as instituições da liberdade não são fenômenos naturais nem irreversíveis. Foram construídas ao longo de séculos e podem ser desmontadas em poucos anos quando a vigilância cidadã afrouxa. A segunda: o momento de defendê-las é sempre antes da crise final, quando a defesa ainda parece exagerada ou desnecessária. Quando June percebe que perdeu o emprego, o dinheiro e a filha, já é tarde.


