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Bets: Cerca de 39,5 milhões de brasileiros realizaram ao menos uma aposta no último ano. Foto: Anna Tolipova/Agência Senado

Artigo escrito por Érico Colodeti Filho CFP® (Certified Financial Planner), especialista em investimentos pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Especialista em criptomoedas pela Associação Nacional das Corretoras Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). Professor universitário.

O cenário das transmissões esportivas no Brasil sofreu uma metamorfose drástica nos últimos anos. O que antes era uma exposição sazonal tornou-se um fenômeno onipresente após a Lei 14.790/2023 regulamentar as apostas de quota fixa.

O que se iniciou como uma promessa de entretenimento transformou-se em uma crise de saúde pública que atinge o cerne da família brasileira.

Nesse sentido, a magnitude do mercado das bets é alarmante. Cerca de 39,5 milhões de brasileiros realizaram ao menos uma aposta no último ano, enquanto o volume financeiro transacionado em 2024 alcançou R$ 240 bilhões. E mantém a tendência de alta com R$ 17,4 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025.

O impacto negativo anual das bets é estimado em R$ 38,8 bilhões. Do mesmo modo englobando gastos com saúde pública, suicídios, desemprego bem como afastamentos do trabalho. São quase 11 milhões de brasileiros apostando de modo a colocar em risco imediato sua saúde mental e estabilidade financeira.

Endividamento afeta a todos

De acordo com a pesquisa DataSenado de junho de 2024, 42% dos brasileiros que apostam estão endividados. Do mesmo modo, em 2026, análises do Ibevar/FIA Business School confirmam que as bets se tornaram o maior motor do endividamento das famílias brasileiras, superando inclusive o cartão de crédito.

As consequências refletem-se diretamente na Previdência Social. Houve um aumento de 2.300% nos auxílios por incapacidade temporária concedidos pelo INSS a trabalhadores diagnosticados com ludopatia em 2025. E ainda, com projeção de R$ 30 bilhões anuais em custos de saúde.

A ludopatia, reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças como um transtorno mental, atua no cérebro ativando as mesmas áreas de prazer que drogas pesadas como o crack. Ou seja, cria uma dependência que isola o indivíduo de seu convívio social e profissional.

O vício em apostas é um fenômeno emergente em que jovens abandonam o ensino superior devido ao acúmulo de dívidas de jogo. Uma perda geracional ainda não adequadamente contabilizada.

Marketing, bets e Copa: tempestade perfeita

A expansão do vício é alimentada por campanhas publicitárias de alcance sem precedentes.

A estratégia de marketing das bets é desenhada para ser onipresente, aproveitando o componente emocional do esporte. Nesse sentido, a publicidade durante grandes eventos como a Copa do Mundo funciona como um gatilho permanente para o apostador compulsivo.

O ambiente corporativo não está imune às bets. Trabalhadores sob o efeito da ludopatia apresentam queda de concentração, recorrem a empréstimos com agiotas para cobrir perdas bem como, frequentemente, utilizam o horário de expediente para realizar novas apostas. Diante da gravidade, o Governo Federal intensificou as medidas de controle.

Em janeiro de 2026 o Ministério da Saúde lançou um guia nacional para o tratamento da dependência em jogos, com implementação da Linha de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas. E, do mesmo modo, há discussão no Congresso Nacional para restrição severa da publicidade de bets, similar ao que ocorreu com a indústria do tabaco.

Érico Colodeti Filho CFP® (Certified Financial Planner) é especialista em investimentos e professor universitário. Foto: Divulgação

As apostas online deixaram de ser um nicho de entretenimento para se tornarem um problema de saúde pública de proporções epidêmicas, com impacto comparável à dependência de substâncias químicas. A destruição da saúde mental, o colapso financeiro das famílias e o custo bilionário para o Estado exigem uma resposta coordenada que priorize a vida e a estabilidade social em detrimento do lucro das plataformas de jogo, as bets.

Porque o Brasil não pode continuar permitindo que o futebol, símbolo de unidade nacional, seja transformado em um cassino onde as famílias perdem não apenas dinheiro, mas sua dignidade e seu futuro.



FONTE: Folha Vitória