Recorrer à história é sempre útil — e até pedagógico — quando analisamos fenômenos recorrentes como guerras e choques na oferta de petróleo e suas consequências, como estamos tendo no momento. Esses eventos costumam envolver os mesmos elementos, fatores e atores: o Oriente Médio, disputas geopolíticas e o petróleo, insumo fundamental para a economia mundial. Isso desde a década de setenta.
Ao longo das últimas décadas, guerras e crises do petróleo foram seguidas por instabilidades econômicas e rearranjos geopolíticos. Considerando os eventos mais relevantes em termos de impacto e duração, a atual tensão envolvendo o Irã pode ser entendida como mais um episódio dessa sequência iniciada nos anos 1970.
O primeiro grande choque ocorreu em 1973, com a Guerra do Yom Kippur, envolvendo principalmente Israel, Egito e Síria. Em resposta ao apoio ocidental a Israel, países árabes produtores, organizados na OPEP, reduziram drasticamente a oferta — o chamado embargo do petróleo.
Como consequência, o preço do barril subiu de cerca de 3 para 12 dólares. Foi a mais intensa crise do tipo. No Brasil, o impacto foi imediato: o crescimento econômico caiu de cerca de 10–14% para aproximadamente 5% em 1974. No Espírito Santo, a retração foi ainda mais forte, passando de cerca de 18% em 1973 para -0,5% em 1974. A inflação aumentou significativamente, agravada pela forte dependência externa — cerca de 80% do petróleo consumido era importado.
Esse cenário levou o país a adotar políticas de redução da dependência energética, como o fortalecimento da Petrobras e a criação do Proálcool em 1975.
O segundo choque ocorreu em 1979, com a Revolução Iraniana, que depôs o xá Mohammad Reza Pahlavi e instaurou um regime teocrático no país. No Brasil, os efeitos foram agravados pelo elevado endividamento externo acumulado após o primeiro choque.
Entre 1981 e 1983, os impactos foram severos: o PIB brasileiro caiu 4,3% em 1981 e 2,9% em 1983. No Espírito Santo, houve estagnação em 1981 e retração de cerca de 1% no ano seguinte. A década de 1980 ficou conhecida como “década perdida”, marcada por baixo crescimento e alta inflação.
A terceira crise ocorreu com a Guerra do Golfo, após a invasão do Kuwait pelo Iraque. Embora mais curta e menos intensa, afetou o Brasil em um momento de grande fragilidade interna. Em 1990, já no governo Fernando Collor de Mello, o PIB brasileiro caiu cerca de 4,4%, enquanto o Espírito Santo registrou retração próxima de 3%.
Atualmente, pode-se falar em um novo contexto de tensão envolvendo o Irã, com potencial de impactar o mercado global de petróleo. Diferentemente dos episódios anteriores, o Brasil apresenta uma situação mais favorável: tornou-se exportador líquido de petróleo, com balança comercial positiva no setor, embora ainda dependa parcialmente da importação de derivados, como o diesel.
Assim, os impactos tendem a ser mais indiretos, como aumento de custos logísticos, pressões inflacionárias e dificuldades comerciais específicas. No caso do Espírito Santo, inclusive, podem surgir oportunidades, devido à elevação dos preços do petróleo e à menor exposição direta aos mercados afetados por conflitos.


