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Da esquerda para a direita: Alessandra Pontes Junqueira e Lenita Teixeira Alves. Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

Há quem pense que correr é fácil: basta levantar da cama, colocar um tênis, sair correndo e pronto. Mas manter a constância da prática não é um tarefa fácil, especialmente quando tratamos de mulheres que são atravessadas por diversas situações diariamente.

Trabalho, casa, filhos, falta de tempo. Mulheres adultas enfrentam vários compromissos e precisam ainda conciliar tudo isso com alguma atividade física, para se manterem saudáveis física e psicologicamente.

Pensando nisso, a educadora física Alessandra Pontes Junqueira criou, nos últimos seis anos, dois projetos voltados a mulheres corredoras: Eu Sou Dessas e Mulheres que Correm.

Eu queria ajudar as mulheres a atravessar esse oceano que é desbravador a partir dos 40 anos. Nós nos afastamos da maternidade um pouco, nos distanciamos e descobrimos que estamos desamparadas. O corpo mudou, não nos reconhecemos mais, não sabemos como nos vestir, como nos comportar, como viver. Isso aconteceu comigo e olha que eu sou professora de educação física. Eu percebi que estava nesse lugar e percebi também que muitas mulheres estavam. E tomei a decisão de que eu iria, não só retomar a minha vida de personal, mas também cuidar e ajudar essas mulheres como eu.

Alessandra Pontes Junqueira, educadora física.

Foi em 2019 que o Eu Sou Dessas surgiu. No programa, Alessandra construiu uma metodologia de treinos com volume, intensidade, instrução biomecânica, de respiração, de comportamento e de fisiologia por áudio. O intuito é que os treinos sejam acompanhados em qualquer hora e lugar.

“Quando uma mulher fala, ou uma pessoa fala: eu não consigo correr, ninguém consegue correr, porque não é inerente à capacidade humana. Ela é treinada. A gente precisa treinar a capacidade cardiorrespiratória. E no áudio vem a instrução, modulando essa intensidade a cada treino. Então, o primeiro treino tem uma intensidade de esforço, no segundo treino, e assim ela vai construindo uma capacidade. Além disso, tem todo um acolhimento de: você consegue, eu sei como você está se sentindo, relaxa os ombros”, afirma.

Com o desenvolvimento do Eu Sou Dessas, Alessandra quis também oferecer as mesmas aulas de forma gratuita, como uma forma de tornar o projeto ainda mais acessível. Então, ela criou o Mulheres que Correm, com a mesma proposta que o Eu Sou Dessas.

Corrida e saúde mental

Toda a atividade física tem sua importância para a saúde mental. Uma das alunas de Alessandra é psicóloga e explica a relação entre corrida e melhora na qualidade psiquica.

As pessoas, quando correm, liberam estresse e a ansiedade que têm. Quando você corre, o seu cérebro se prepara para se defender, porque você está exigindo do seu corpo, naquele momento, aquela atividade. Isso resulta na liberação de hormônios extremamente importantes: noradrenalina, adrenalina, cortisol, serotonina e as endorfinas.

Lenita Teixeira Alves, psicóloga e aluna de Alessandra.

Da esquerda para a direita: Alessandra Pontes Junqueira e Lenita Teixeira Alves. Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

A história de Lenita com a corrida começou recentemente, mas o desejo de se desafiar foi crucial para escolher esse novo esporte, que, segundo ela, já gera impactos na sua relação consigo mesma.

“Eu, como psicóloga, sei que quando você corre, começa a vencer seus limites, a sua vida também anda. Ela anda no sentido de dizer que você tem autoconfiança e que consegue ir além”, disse.

Assim como para suas alunas, Alessandra tem a corrida como algo além de uma atividade física. Ela começou a correr ainda adolescente, na sua cidade natal, em Itapemirim, no Litoral Sul do Espírito Santo, para tentar lidar com o maior desafio da época: passar no vestibular em uma universidade pública.

“Quando cheguei no terceiro ano, a educação física escolar se afasta. Antes eu não corria, eu era só atleta de escola. Então eu comecei a correr, foi quando eu descobri a corrida na minha vida. Eu fui correr na praia, porque meu corpo sentia essa necessidade, eu descobri a corrida ali. E todas as vezes que eu ia correr, eu estava sempre triste, preocupada, sem saber se eu iria conseguir passar na universidade.”

A prática segue na vida de Alessandra até hoje: correndo quando sente necessidade e auxiliando outras mulheres a conseguirem liberar todos os sentimentos e dificuldades na atividade.

Uma das maiores conexões entre eu, as mulheres e a corrida, é que sempre que eu escuto e é a fala que eu mais escuto na minha profissão e no projeto: ‘Alessandra, eu achei que não fosse conseguir e eu consegui.’ Então, eu lembro daquela menina lá, com 16 anos, que tinha o sonho de cursar educação física.

Alessandra Pontes Junqueira, educadora física.

Mente, confiança e organização

Diferentemente de Lenita, a estudante de enfermagem Ana Clara Sala Gasparini não é aluna de Alessandra, mas corre há dois anos. Os efeitos da prática percebidos por ela são muitos similares aos já citados.

“Correr para mim é o momento em que desligo a minha mente e me provo que sou capaz de realizar o que me proponho a fazer. Depois que comecei a correr, passei a organizar melhor meus horários e dar mais atenção à recuperação. Tenho uma constância e um estilo de vida muitos mais saudáveis.”

Ana Clara Sala Gasparini. Foto: Acervo Pessoal

Para quem corre há muitos anos, o impacto é ainda maior e treinar já faz parte da rotina. A analista educacional Izabela Maria Martins da Silva corre, entre pausas e retornos, há oito anos. Desde junho de 2025, a corrida voltou de fato para sua rotina.

Segundo Izabela, a atividade é essencial para criar uma rotina, aliviar o estresse e cuidar de si mesma.

“A corrida é fundamental para minha saúde mental. É um momento em que consigo aliviar o estresse, organizar os pensamentos e cuidar de mim. Como gosto de treinar às 5h, preciso me planejar no dia anterior, dormir mais cedo e cuidar melhor da minha alimentação. Isso acabou refletindo positivamente em toda a minha rotina e na minha qualidade de vida”, destacou.

Izabela Maria Martins da Silva. Foto: Acervo Pessoal

É caro correr?

As corridas têm se tornado um esporte popular nas redes sociais, por isso há quem pense que praticar o esporte é caro. E de fato, pode ser, especialmente para quem compete.

Izabela, por exemplo, conta que participa de duas corridas por mês e gasta cerca de R$ 200 com inscrições. Além disso, ela tem outros gastos como tênis, roupas, acessórios esportivos e suplementos.

“Os valores aumentaram bastante nos últimos anos, tanto das inscrições quanto de alguns itens necessários para a prática”, explica Izabela.

Ana Clara também relata um aumento de valores após a popularização da prática, atualmente ela gasta em torno de R$ 150 a R$ 190 para inscrições, além de custos com roupas.

“Sempre quero investir em uma roupa nova para o dia da corrida, invisto em tênis anualmente, mas não costumo fazer altos investimentos para alimentar o hobby no dia a dia”, conclui Ana Clara.

Por outro lado, Alessandra frisa que a corrida, para aqueles que não querem competir, é um dos esportes mais acessíveis, porque você pode correr na rua, no condomínio, na praia, no quarteirão e pode correr com as roupas e tênis que tiver, desde que sejam confortáveis.

Você não precisa de absolutamente quase nada para correr. Você pode descer na calçada da sua casa e fazer. E se você botar todos os itens que hoje são pautados como itens de necessidade para correr, como tênis, relógio, roupa cara, a verdade é que você não precisa de nada disso.

Na corrida, você não precisa de tênis; você pode correr descalço. Se você decidir, por exemplo, correr descalço, faça uma adaptação, mas você pode; não vai te dar lesão por causa disso, não vai te causar nenhum problema de saúde porque você está correndo descalço.

A camisa de dry fit é melhor, é algodão respirável. É verdade. Mas nada te impede de correr com uma camisa de algodão. Absolutamente nada. Você não vai ter nenhum problema de saúde. Nenhum problema. Short, porque precisa ser uma fibra, não precisa. Você pode ir com o short que você tiver em casa, com a calça que você tiver.

Alessandra Pontes Junqueira, educadora física.

Ainda de acordo com a educadora física, outras atividades físicas também são acessíveis e podem fazer a diferença na sua rotina: como agachamento, polichinelo, flexão e abdominal, que podem ser feitos em qualquer lugar e em qualquer hora.

Mais do que disputar provas ou buscar medalhas, a corrida tem se mostrado uma ferramenta para melhorar a saúde física, reduzir o estresse e fortalecer a autoconfiança de mulheres que encontraram no esporte uma forma de cuidar de si mesmas.



FONTE: Folha Vitória