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João Foca no pódio do sul-americanodurante o Kpaloa Bodysurf International, competição classificatória para o Campeonato Mundial de Bodysurf 2026. (Foto: Reprodução/Instagram joaofoca).

Uma brincadeira comum nas praias deu ao morador de Vila Velha João “Foca” Bazellatto uma carreira internacional. Ele fez do tradicional “jacarezinho” um esporte de alto rendimento e conquistou vaga para disputar o Campeonato Mundial de Bodysurf, que será realizado na França.

Agora, o maior desafio está fora do mar: conseguir recursos para viajar e representar o Brasil.

Guarda-vidas e bicampeão brasileiro de bodysurf — ou “surfe de peito” —, João garantiu a classificação após terminar entre os melhores no Kpaloa Bodysurf International, seletiva sul-americana disputada no Rio de Janeiro.

É um sonho que vem sendo construído há muitos anos. O Mundial reúne atletas classificados em todos os continentes e estar entre eles representa muito para mim e para o esporte”

João “Foca”

Do jacarezinho na Barra do Jucu ao Mundial

A história de João com o mar começou ainda na infância. Morador do Vale Encantado, em Vila Velha, ele passava as férias na Barra do Jucu com o tio, que o levava para brincar nas ondas. Como milhares de crianças fazem todos os verões, ele descia as ondas usando apenas o próprio corpo.

O que parecia apenas uma diversão virou paixão.

“Eu comecei de forma intuitiva. Toda criança que vai à praia brinca de jacarezinho. O bodysurf é justamente a evolução dessa brincadeira”, relembra.

Ainda pequeno, viveu alguns sustos no mar. Ele lembra que já foi arrastado por correntes de retorno, mas aprendeu cedo, com o tio e o primo, como sair delas.

“Eles não me tiravam da corrente. Diziam: ‘eu já te ensinei, agora você precisa sair sozinho’. Foi assim que fui aprendendo.”

Falta de dinheiro quase impediu o sonho

Na adolescência, João queria apenas uma nadadeira para conseguir pegar mais ondas.

Como não tinha dinheiro para comprar o equipamento, entrou em uma escolinha de bodyboarding apenas para poder utilizar o pé de pato durante os treinos.

“Eu fazia toda a aula normalmente. Quando aparecia uma oportunidade, deixava a prancha na areia e ia surfar de peito.”

Foi nessa época que conheceu Luiz Paulo “Paulão”, atleta vindo do Rio de Janeiro, que apresentou o bodysurf como modalidade esportiva. Até então, João nem sabia que existiam campeonatos.

Em 2008, disputou sua primeira competição, em Macaé (RJ), terminou na sétima colocação e nunca mais deixou o Circuito Brasileiro.

Bicampeão brasileiro e referência no esporte

Desde então, João construiu uma trajetória marcada por títulos e pioneirismo. Além do bicampeonato brasileiro, ele também ficou conhecido por ser o primeiro praticante de bodysurf a surfar a temida onda do Avalanche, pico localizado na Ilha dos Pacotes, a cerca de cinco quilômetros da Praia da Costa, em Vila Velha.

A experiência quase terminou em tragédia. Durante uma série de ondas gigantes, ele acabou ficando atrás da arrebentação e precisou mergulhar sem ar para escapar.

“Foi uma experiência de morte. Se aquela onda tivesse me puxado de volta, provavelmente seria fatal”, relembra.

Onda da avalanche de João Foca
Onda da avalanche de João Foca (Foto: Reprodução/instagram @ds.imagens Diego Silva).

Entre dois empregos e os treinos

Fora das competições, João vive uma rotina intensa. Ele trabalha como guarda-vidas e, para complementar a renda, também exerce outra atividade nos dias de folga.

Sem patrocinador fixo, todas as viagens para campeonatos foram custeadas com ajuda de amigos, rifas ou economias pessoais.

“Nunca tive um patrocinador que bancasse realmente as competições. Sempre contei com ajuda de pessoas próximas.”

Ele também lamenta a falta de incentivo para modalidades que ainda não possuem uma estrutura nacional consolidada.

“Como não existe federação ou confederação reconhecida, acabamos ficando fora de muitos programas públicos de incentivo ao esporte.”

João Foca atuando como salva vidas
João Foca atuando como salva vidas. (Foto: Reprodução/instagram lupho_imagens).

Superação dentro e fora das ondas

Os desafios não ficaram apenas no esporte. Em 2019, pouco antes do Circuito Brasileiro, a casa onde morava foi inundada durante uma forte chuva em Vila Velha. Os móveis foram perdidos, a estrutura da residência ficou comprometida e a família precisou sair do imóvel.

Mesmo vivendo de favor por alguns meses, João continuou viajando para competir. Naquele mesmo ano conquistou o bicampeonato brasileiro.

“Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. A cabeça estava cheia de preocupações, mas consegui transformar aquilo em motivação”

João “Foca”

Desafio agora é chegar à França

Depois de garantir vaga no Mundial, João iniciou uma campanha para arrecadar recursos. Inclusive quem quiser ajudar nosso atleta a realizar esse grande sonho, pode ajudá-lo através dos links da rifa e da vaquinha.

A viagem será realizada em setembro e inclui um período de treinamento em Portugal antes da competição na França. Somente a inscrição custa 200 euros. Além disso, há despesas com passagens, hospedagem, alimentação, roupa de borracha para enfrentar a água gelada e outros equipamentos.

Por isso, o atleta está promovendo uma vaquinha virtual e rifas para conseguir representar o Brasil.

“Ainda estamos arrecadando. É uma viagem muito cara e, sem patrocínio, essa é a alternativa que encontramos para realizar esse sonho.”

Mesmo diante das dificuldades, João diz que nunca pensou em desistir.

“O maior aprendizado foi a constância. Continuar trabalhando, acreditando e levando o esporte para outras pessoas. Esse é o legado que quero deixar.”

João Foca em uma onda
João Foca em uma onda. (Foto: Reprodução/Instagram @mairakellermann).

(*) Texto sob a supervisão do editor Flávio Dias



FONTE: Folha Vitória