Quando deu os primeiros chutes na bola, Liz Valverde não imaginava que o futebol a levaria para outro país. Na verdade, nem ela, nem a família tinham esse plano. Tudo começou por brincadeira, acompanhando o irmão mais velho, Pedro, nos jogos com os amigos e, depois, na escolinha de futebol.
Mas foi justamente um obstáculo enfrentado ainda na infância que acabou mudando sua história.
Liz queria jogar como atacante. Só que os meninos praticamente não passavam a bola para ela. A solução encontrada pela própria menina foi pedir ao treinador para atuar como zagueira.
A mudança, feita quase por acaso, definiu a posição que a levou à seleção brasileira de base, ao Corinthians e, hoje, a vestir a camisa da academia do Benfica nos Estados Unidos.
Eu comecei a jogar, era atacante, mas os meninos não passavam a bola para mim. Aí, em um dos primeiros campeonatos, pedi para jogar na zaga. O técnico até estranhou: ‘Na zaga, Liz?’. Mas deu certo e estou aí até hoje”
Seleção brasileira e carreira nos EUA
Hoje, aos 17 anos, a capixaba vive uma nova fase da carreira, nos Estados Unidos, depois de fazer história no futebol do Espírito Santo, vestir a camisa do Corinthians e defender a seleção brasileira de base. Mas ela garante que o sonho foi sendo construído aos poucos.
“Para falar a verdade, eu percebi que queria ser jogadora ao longo do tempo. No início era só por brincadeira, porque eu gostava”, conta.
Início no futebol dentro de casa
A paixão pelo esporte nasceu dentro de casa.
O pai da jogadora, Luciano Valverde, lembra tudo começou porque Liz acompanhava o irmão mais velho, Pedro, que treinava em uma escolinha de futebol.
“A relação dela com o futebol iniciou de forma lúdica. Era pela diversão, pelo ambiente. Não havia uma perspectiva de que aquilo pudesse se tornar um projeto de carreira”, lembra.
Pedro conta que a irmã sempre fazia questão de participar das partidas, mesmo quando os meninos não queriam a presença da caçula.
“Liz, desde cedo, demonstrou muito interesse por jogar bola. Eu chamava meus amigos para jogar lá em casa e ela sempre queria entrar no meio. Eu não queria, porque era minha irmã mais nova, mas ela sempre estava jogando com a gente”, conta.
Assim, os dois irmãos começaram a jogar nas escolinhas de futebol do Grêmio.

Conquistando espaço entre os meninos
Durante anos, jogar ao lado de meninos foi algo natural para Liz. “Para mim era normal, porque minha vida toda tinha sido assim. Eu nunca tinha jogado com meninas, então não era nada diferente”, afirma.
Com o passar do tempo, o talento falou mais alto.
Ela deixou a escolinha para defender o Porto Vitória, onde fez história ao se tornar a primeira menina a jogar uma competição oficial de base entre os meninos. Foi titular, conquistou o título estadual sub-13 e chamou a atenção do futebol brasileiro.
“O espaço foi conquistado ao longo do tempo. Cada vez eu fui aprendendo mais, me soltando mais e me desenvolvendo. Consequentemente, fui ganhando espaço”, diz.
Para o pai, a evolução aconteceu de forma completamente espontânea.
“Ela jogava futebol porque gostava e isso acabou abrindo outras portas”, resume.

Seleção brasileira abre novas portas
O desempenho chamou a atenção da comissão técnica da seleção brasileira sub-15. A convocação representou um marco importante na carreira da capixaba, mas também trouxe uma experiência inédita.
A primeira vez que joguei com meninas foi na seleção. Eu não tinha noção de como era esse universo. Aprendi muito e foi uma mudança de chave para mim”
A visibilidade despertou o interesse de grandes clubes do País. Para Luciano, foi justamente após a convocação que começaram a surgir propostas para que Liz deixasse o Espírito Santo.
“A primeira convocação criou um cenário de visibilidade. Os grandes clubes passaram a demonstrar interesse nela”, conta.

Difícil decisão de sair de casa
Apesar do orgulho, a família resistiu à ideia de ver Liz deixar Vitória tão cedo.
“Nós entendíamos que era muito precoce, com 13 ou 14 anos. Nossa intenção era mantê-la aqui porque ela estava evoluindo muito treinando com os meninos”, explica o pai.
A decisão só aconteceu depois de um convite diferente do Corinthians. Em vez de exigir uma resposta imediata, o clube abriu as portas para que Liz conhecesse a estrutura antes de decidir.
Ela gostou do ambiente e a mãe se mudou para São Paulo para acompanhá-la durante esse período.

Crescimento dentro e fora de campo
A adaptação não foi simples. “Foi a primeira vez longe de casa. Não foi só mudar de clube, foi mudar de estado. O primeiro mês foi mais difícil do que eu esperava”, lembra Liz.
Com o tempo, porém, ela encontrou seu espaço. Mais do que evoluir tecnicamente, descobriu um novo ambiente social.
“Com os meninos eu tinha abertura para falar dentro de campo, mas fora dele eu não conseguia me enturmar tanto. No Corinthians, eu comecei a jogar com as meninas e então pude desenvolver liderança, fiz amizades, vivi muitas viagens e conheci uma Liz que não existia antes”
Lesão coloca tudo em dúvida
Durante a passagem pelo Corinthians, Liz enfrentou o momento mais delicado da carreira. A zagueira convivia com dores constantes e já não conseguia correr normalmente, mas, inicialmente, o problema não era identificado.
A mãe, Polyana Valverde, percebeu que algo estava errado e insistiu para que a filha passasse por uma avaliação mais detalhada.
“Eu via que a Liz já não conseguia correr sem sentir dor. O Corinthians dizia que ela não tinha nada, mas continuei insistindo porque sabia que aquilo não era normal”, relembra.
Depois da insistência da família, novos exames confirmaram a lesão, e a atleta iniciou o tratamento necessário para voltar aos gramados.
Durante todo o processo, Polyana esteve ao lado da filha, oferecendo apoio em um dos momentos mais difíceis da carreira.
Liz admite que a fase foi complicada, mas afirma que saiu mais forte da experiência.
“Foi um momento muito difícil, mas consegui superar. Aprendi muito com tudo o que vivi.”
Hoje, ela acredita que as dificuldades enfrentadas naquele período contribuíram para o amadurecimento dentro e fora de campo.

Nova vida nos Estados Unidos
Depois da experiência no Corinthians, Liz iniciou mais um capítulo da carreira, desta vez nos Estados Unidos. Seu próximo desafio seria a academia do Benfica, localizada na Flórida.
Segundo ela, a adaptação foi ainda mais desafiadora.
“Foi outro país, outro ambiente e eu não estava mais com a minha mãe, como aconteceu em São Paulo. No segundo mês eu já estava melhor e meus pais puderam me visitar”, conta.
Apesar da distância, a avaliação é positiva.
Ela destaca a quantidade de competições, o alto nível dos treinamentos e a possibilidade de evoluir também fora de campo.
“Tenho bastante minutagem, muitos torneios, treinos ótimos e ainda posso praticar inglês. Estou evoluindo muito”, afirma.
A atleta também acredita que o futebol feminino já ocupa outro patamar no País.
“Nos Estados Unidos esse processo de valorização já aconteceu. No Brasil ainda lutamos por mais investimento, recursos e visibilidade”, analisa.

Sonho continua
Mesmo vivendo uma experiência internacional, Liz entende que ainda está apenas no começo da caminhada. O objetivo imediato é seguir evoluindo para conquistar uma vaga em uma universidade americana. Depois, quer iniciar a carreira profissional.
O maior sonho, no entanto, continua o mesmo.
Quero muito jogar na Europa e voltar a representar o Brasil na Seleção. Esses são os meus maiores sonhos”
Antes de encerrar a conversa, ela deixa um recado para outras meninas que sonham em seguir o mesmo caminho.
“A gente tem que acreditar que é capaz. As coisas acontecem do jeito que devem acontecer. É preciso acreditar que vai dar certo.”

(*) Texto sob a supervisão do editor Flávio Dias.


