banner_cidade
previous arrow
next arrow


O inverno de 2026 chegou com uma previsão que exige atenção do produtor rural capixaba: 100% de probabilidade de manifestação de El Niño entre julho e setembro, com 99,4% de chance de intensidade forte, segundo prognóstico do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Para o Espírito Santo, a tendência é de chuva abaixo da média no trimestre e temperaturas acima do normal em todo o estado. O cenário tem dois lados e entender ambos é o que vai separar quem aproveita o inverno de quem é surpreendido por ele.

O lado favorável está na colheita. O clima seco previsto para julho, agosto e setembro é exatamente o que o produtor de café precisa para avançar nos trabalhos de campo. A colheita do arábica, que segue atrasada por excesso de chuvas em junho, deve ganhar ritmo com a chegada do tempo seco.

O conilon, que já atingiu 59% da safra colhida segundo o levantamento mais recente da Safras & Mercado, também se beneficia da janela seca para a fase final da colheita e para a secagem dos grãos nos terreiros. Para a tomaticultura capixaba, que vem migrando aceleradamente para o cultivo em estufa, o controle climático interno das estruturas protegidas reduz a exposição às variações de temperatura e umidade do inverno.

O lado de alerta está no que vem depois da colheita. O café conilon e o arábica capixaba dependem do retorno adequado das chuvas entre agosto e setembro para estimular a florada da próxima safra e um inverno com El Niño forte e chuva abaixo da média pode atrasar esse retorno. A florada é o evento mais crítico do ciclo produtivo do café: é ela que define o potencial de produção do ano seguinte. Um período seco prolongado que ultrapasse a colheita e invada o início da fase de florada pode comprometer a safra 2027 antes mesmo de ela começar.

O alerta é ainda mais relevante no Norte capixaba, onde a colheita do conilon já enfrenta resultados abaixo do esperado. Produtores da região relatam perdas que chegam a 40% em algumas propriedades, reflexo de temperaturas baixas na época da florada do ciclo anterior e do envelhecimento de lavouras que não foram renovadas. Um inverno com El Niño forte e déficit hídrico adiciona pressão sobre lavouras que já chegam ao fim do ciclo fragilizadas e reforça a urgência da renovação que discutimos na semana passada.

O Inmet também alerta para os efeitos indiretos do El Niño forte sobre a agropecuária capixaba. O calor acima da média aumenta a evapotranspiração, eleva a demanda hídrica das culturas e reduz o armazenamento de água no solo.

Nas pastagens, o déficit hídrico pode reduzir a oferta de forragem e aumentar a necessidade de suplementação do rebanho bovino e caprino. Para quem tem irrigação instalada, o trimestre exige planejamento cuidadoso do uso da água, especialmente nas lavouras de café que ainda não terminaram a colheita e que já precisam olhar para a florada.

A recomendação do Inmet e dos técnicos do Incaper é clara: acompanhar as atualizações climáticas com frequência, planejar o uso da irrigação com antecedência e monitorar o estado das lavouras perenes durante o período seco. El Niño forte não é surpresa, já está previsto com altíssima probabilidade. O que define o resultado no caixa da propriedade é o quanto o produtor se antecipou.



FONTE: Folha Vitória