A decisão dos Emirados Árabes Unidos de deixar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), com efeitos a partir de 1º de maio de 2026, atinge o agronegócio capixaba em três frentes concretas: no preço do diesel que abastece a colheita, no custo do fertilizante importado e no frete que leva o produto até o mercado.
A OPEP reúne os maiores países produtores de petróleo do mundo. O grupo decide coletivamente quanto cada membro pode produzir, controlando assim o preço do barril. A OPEP+, criada em 2016, ampliou esse acordo para incluir outros grandes produtores, como a Rússia. Os Emirados saíram dos dois.
A razão é direta. A ADNOC, estatal de petróleo dos Emirados, elevou sua capacidade de produção para cerca de 4,85 milhões de barris por dia e tem meta de chegar a 5 milhões até 2027. Um país que investiu nessa escala não aceita ficar limitado por cotas decididas em conjunto.
Para Felipe Storch Damasceno, economista-chefe do IBEF-ES, a saída vai além de uma mudança administrativa. “Trata-se de um sinal de fragmentação na governança internacional do petróleo”, avaliou. Com menos membros dispostos a seguir regras coletivas, a OPEP perde força para estabilizar preços e o mercado fica mais volátil. Essa volatilidade percorre rotas marítimas, atravessa fronteiras e chega ao campo na forma de custo.
O ES no centro do mercado de petróleo
O Espírito Santo não é apenas consumidor dos efeitos desse mercado, é parte dele. O estado é um dos maiores produtores de petróleo e gás do Brasil, com produção offshore relevante na Bacia do Espírito Santo e presença consolidada na cadeia de serviços, logística e infraestrutura do setor. Quando o preço do barril sobe, o estado arrecada mais em royalties e participações especiais.
A fragmentação da OPEP também abre espaço para que produtores fora do cartel ganhem participação de mercado. O Brasil atingiu em fevereiro de 2026 um recorde de produção de 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Num cenário em que a coordenação do cartel enfraquece, países produtores eficientes tendem a capturar contratos que antes iam para membros da organização.
O ES, com sua infraestrutura portuária, base de serviços especializados e posição consolidada na cadeia, está bem colocado para se beneficiar desse movimento.
Damasceno resume o que o cenário exige do estado: “O Espírito Santo combina oportunidades associadas à cadeia de óleo e gás com vulnerabilidades típicas de uma economia aberta, exportadora e dependente de transporte. Energia continuará sendo uma variável estratégica para inflação, competitividade, arrecadação, investimento e planejamento econômico regional.”
Diesel
O diesel move o trator, o caminhão, o pulverizador e o sistema de irrigação. No ES, com colheitas em andamento em diversas culturas, ele é parte direta do custo operacional de cada propriedade. Quando o petróleo sobe, o diesel sobe junto, e essa alta chega ao campo antes de qualquer ajuste no preço de venda da produção.
O risco atual é duplo. Sem a OPEP coordenando a oferta, o preço do petróleo fica mais imprevisível. Tensões no Estreito de Ormuz, passagem no Golfo Pérsico por onde escoa boa parte do petróleo mundial, podem interromper o transporte e pressionar preços mesmo que haja volume disponível.
“Qualquer aumento de oferta planejado pode ser neutralizado por riscos de interrupção no transporte”, apontou Damasceno. Para o produtor fechando o custo da safra agora, essa incerteza tem preço concreto.
Fertilizante
O Brasil importa entre 85% e 90% dos fertilizantes que usa na agricultura. Grande parte desse volume passa por rotas que dependem da estabilidade do Oriente Médio, região que responde por cerca de 40% das exportações mundiais de ureia, o principal fertilizante nitrogenado usado nas lavouras brasileiras.
Para o produtor capixaba, o fertilizante é um dos maiores itens de custo, independentemente da cultura. No conilon, representa cerca de 33% do custo operacional efetivo. No hortifruti e na fruticultura, o peso é igualmente relevante.
A janela de compra de fertilizantes para o segundo semestre está aberta agora. Quem decide olhando só para o preço corrente, sem considerar o que está acontecendo no mercado global, corre o risco de ser surpreendido nas próximas semanas.
Frete
Café, celulose, pimenta-do-reino, granito e aço saem pelo complexo portuário capixaba para mercados que dependem de rotas marítimas estáveis. Instabilidade no mercado de energia encarece o combustível dos navios e eleva também os custos de seguro e operação das embarcações.
“Em ambientes de instabilidade energética, há impacto sobre fretes marítimos, seguros, custos operacionais e previsibilidade de contratos. Mesmo quando o choque não atinge diretamente o produto exportado, ele pode afetar a competitividade via custo logístico e incerteza cambial”, disse Damasceno.
Para o exportador capixaba, a margem pode diminuir não pelo preço do produto, mas pelo custo de levá-lo até o comprador.


