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Mãe não é o nome na certidão de nascimento, nem o vínculo biológico. Cada história de mãe tem um enredo diferente, mas todas as Mães com M maiúsculo têm um ponto em comum: o gerúndio. Porque Mãe é função que se conjuga no tempo que nunca para.

A mãe não começa e termina. Ela permanece. Mesmo quando dorme, alguma parte dela está acordada por um estado de prontidão que o corpo aprende e não esquece mais. Mesmo quando está longe, ela continua presente de um jeito que desafia a geografia.

Mesmo quando não está mais entre nós, ela continua aparecendo na forma como você descasca uma fruta, canta aquela música ou fala aquela frase que você jurou que nunca ia repetir e um dia ouviu saindo da sua própria boca.

A simultaneidade da Mãe não é multitarefa. É uma forma de existir em várias camadas ao mesmo tempo, como se o tempo linear não fosse suficiente para caber tudo que ela precisa conter. Ela está no agora e no depois. No que acontece e no que ainda pode acontecer. Sempre em mais de um lugar, nunca completamente ausente de nenhum.

Quem materna não fica parado. Vai aprendendo junto com o filho, no mesmo ritmo do crescimento e da necessidade dele, sem poder pausar para estudar melhor o assunto. Quando a criança tem dois anos, a mulher tem dois anos como Mãe.

Quando o filho entra na adolescência, ela entra junto — como Mãe de adolescente. Quando nasce outro filho, ela aprende a ser Mãe de dois. Quando o filho tem necessidades especiais, ela se torna especialista. Sem manual, sem experiência prévia naquele território específico.

E o mais impressionante: ela progride sem que ninguém perceba. Sem certificado ou diploma, de repente ela sabe de coisas que não sabia. De repente ela começa a entender o que antes era confuso. De repente o filho entra em uma fase e ela mergulha junto, improvisando com uma competência que parece até ensaiada.

Quem materna aprende a traduzir o outro. Aprende a escutar o não dito, a perceber o impalpável. Quem materna aprende a adiar a si mesmo. Não como sacrifício dramático, mas como uma reorganização de prioridades que acontece tão naturalmente que nem é notada.

Amor de Mãe não é suave. É teimoso, inconveniente, contraditório, intransigente. É o amor que não pede licença para aparecer numa reunião importante, que liga no pior momento e que acerta em cheio.

Que briga com você e que te exibe orgulhoso para todo mundo. Que sabe quando você está mentindo, mas às vezes finge acreditar porque entende que você precisa de espaço para errar sozinho.

Amor de Mãe não é delicado. É resistente e resiliente. Tem fibra. Aguenta muita coisa sem quebrar. E quando racha, chora no banho e conserta sozinho durante a madrugada enquanto o resto da casa dorme. E está tudo bem, a Mãe sabe, ela entende.

À medida em que a gente cresce a mãe vai ficando mais humana. A gente começa a saber das histórias dela antes de nós, dos planos que ficaram pelo caminho, dos medos que ela teve e tem. E nesse momento, se a gente tiver sorte e juízo, vai parar de olhar o Dia das Mães como obrigação e aproveitá-lo como oportunidade.

Hoje eu desejo que você faça uma ligação de vídeo sem pressa, que deixe o almoço durar mais do que o normal, que abrace mais apertado e por mais tempo, que tire muitas fotos. Porque o tempo não avisa que está passando. A Mãe já sabe disso há muito tempo. Ela só estava esperando, no gerúndio, você descobrir também.



FONTE: Folha Vitória