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O Ministério da Agricultura suspendeu, de forma imediata e temporária, as importações de amêndoas fermentadas e secas de cacau da Costa do Marfim. A decisão foi publicada nesta semana no Diário Oficial da União e já provocou reações diferentes entre produtores, entidades e indústrias.

A Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) informou, em nota, que recebeu a medida “com preocupação”. Já representantes dos produtores capixabas avaliam que, embora a suspensão seja importante, ela chega tarde e ainda está longe de resolver o problema.

Por que o governo suspendeu?

Segundo o governo federal, a medida foi tomada após avaliação técnica que apontou risco fitossanitário nas cargas destinadas ao Brasil e indícios de possível triangulação comercial.

De acordo com o secretário-executivo da Associação de Cacauicultores do Espírito Santo (Acau), André Scampini, o Brasil vinha recebendo amêndoas não apenas da Costa do Marfim, mas também de outros países africanos.

“Além da Costa do Marfim e Gana, há outros grandes produtores na África, como Nigéria, Togo, Guiné e Camarões. O que foi identificado é que amêndoas desses países estavam sendo compradas pela Costa do Marfim, misturadas e enviadas ao Brasil como se fossem exclusivamente marfinenses”, explicou.

Com isso, além do risco sanitário já existente, haveria um risco adicional. A suspensão, no entanto, é provisória. O Ministério aguarda esclarecimentos e avaliações técnicas complementares antes de tomar uma decisão definitiva. “Não é uma decisão final. Vamos aguardar os desdobramentos”, reforça.

E o impacto para o produtor?

No Espírito Santo, terceiro maior produtor de cacau do país, a decisão foi recebida com atenção. Para a Acau, o único impacto positivo imediato foi a interrupção do risco sanitário. No mercado, porém, o dano já estaria feito.

“Os estoques das grandes moageiras já estão cheios. Milhares de toneladas chegaram antes da suspensão. O preço da saca de 60 quilos está em torno de R$ 600, abaixo do custo de produção e abaixo da cotação de Nova York. Em termos de preço, neste momento, não há impacto”, afirma Scampini.

Scampini admite que a mobilização dos produtores tem aumentado e que a pressão sobre o governo também vem crescendo. “É inaceitável o Brasil correr o risco de importar doenças junto com a amêndoa. O combinado era receber produto da Costa do Marfim, não de vários países misturados. O governo precisa ouvir o produtor antes de tomar uma decisão desse porte”.

Para o produtor de Linhares (ES), Emir de Macedo Gomes Filho, a suspensão demorou. “Chegou tardiamente. As indústrias já estão abastecidas e têm cacau para trabalhar o ano inteiro. Os preços despencaram por causa dessas importações e isso não será resolvido no curto prazo.”

Ele lembra que países da África enfrentam problemas fitossanitários graves, como o vírus do broto inchado, a podridão negra e a praga conhecida como striga, que também atinge outras culturas.

Outro ponto levantado por Emir é que a suspensão atinge apenas a Costa do Marfim. Países como Gana, Nigéria, Camarões e até o Equador continuam podendo exportar para o Brasil. “Se o risco sanitário é o argumento, ele continua existindo com outros países. Então a medida não traz segurança plena”.

Os produtores defendem medidas mais amplas, como garantia de preços mínimos, revisão do drawback e aumento do teor mínimo de cacau no chocolate para 35%, como forma de estimular a demanda interna pela amêndoa nacional.

O Brasil produz cerca de 80% do cacau que consome. Os outros 20% são importados. Em 2025, a produção nacional chegou a 186.137 toneladas, enquanto as importações somaram 42.199 toneladas, segundo dados da StoneX Brasil.

CNA comemora decisão

Já a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) avaliou a suspensão como positiva. A entidade entende que a medida ajuda a proteger a produção nacional contra o ingresso de pragas e doenças.

Para Maciel Silva, diretor-técnico adjunto da CNA, a decisão tem caráter cautelar. “Acreditamos na competência técnica da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura para que, com base científica, tome a decisão mais assertiva para proteger o cacau nacional.”

A CNA informou que vinha defendendo providências após mobilização de sindicatos e federações do Pará, Bahia e Espírito Santo. A entidade também defende o envio de missão técnica ao país exportador para avaliar as condições produtivas e sanitárias.

Paralelamente, a confederação afirma discutir um conjunto de ações para fortalecer a cadeia do cacau, incluindo maior transparência na formação de preços e projetos estruturantes para ampliar a competitividade do setor.



FONTE: Folha Vitória